“3 Faces”: um olhar profundo e crítico, resistência

"A câmera é como uma arma, com forte poder de influência" (Bahman Ghobadi)

Vencedor de Melhor Roteiro no Festival de Cannes deste ano, o longa-metragem "3 Faces", do cineasta iraniano Jafar Panahi, exibido na 42 edição da Mostra Internacional de São Paulo, é um filme maravilhoso, porfundo e impactante, sem dúvida.

"3 Faces" inicia com vídeo amador pertubador feito pela jovem Marziyeh Rezaei num momento de extremo, direcionada à renomada atriz iraniana Behnaz Jafari, implorando por ajuda para escapar de sua família conservadora. Perplexa com as imagens que vê, Jafari deixa a filmagem às pressas e pede ajuda ao amigo, o cineasta Jafar Panahi, para descobrir se aquele vídeo realmente é real ou apenas uma encenação feita pela jovem.

Behnaz e Jafar, que interpretam a si mesmos, assistem várias vezes aquele vídeo e, ao mesmo tempo, vão analisando com cautela as imagem na tentativa de chegar a uma conclusão daquela situação que se apresenta ali. Mas, no entanto, quanto mais cavam e tentam amarrar essas pontas soltas mais dúvidas vão emergindo. Assim, juntos, seguem com destino à aldeia de Rezaei, situada nas remotas montanhas do norte, onde as tradições ancestrais ainda ditam a vida local, com intuito de descobrir a verdade.

À medida que as personagens avançam com sua investigações, deparam-se com indícios contraditórios. Diante desse emaranhado, o espectador também passa a se questionar, ao longo de todo o filme, se o que vê na tela é realmente uma ficção ou realidade. Panahi tensiona essas questões brilhantemente, e mesmo quando as personagens desvendam o enigma, ainda assim consegue surpreender o espectador, que precisa entrar no jogo, desde o início da narrativa.

Panahi retrata em "3 Faces" o Irã contemporâneo de modo orgânico, seus costumes milenares, contradições, as mazelas sociais e a condição de ser mulher num país de crenças e costumes que exercem grande opressão sobre elas desde meninas, bem como ser uma atriz, uma artista. Denuncia os abusos das autoridades, da sua condição como artista no Irã, proibido de fazer filmes.

"3 Faces" é uma belíssima obra cinematográfica documental, Panahi nos presenteia e, ao mesmo tempo, nos tira do lugar comum. É um filme que apresenta um olhar profundo, sensível e crítico, um filme de resistência.

 
 

 

 

 

 

 

 

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e cofundadora do EntreLinha e Coletivo Pausa. É cinéfila, amante das artes e da literatura.