A Arte Visionária: além das fronteiras da percepção

 

Há algum tempo, tenho me dedicado aos estudos das artes visuais e, recentemente, tenho debruçado sobre um assunto que me chamou a atenção: a Arte Visionária.

A Arte Visionária pode ser entendida, de forma bem sucinta, como um “fazer artístico” resultante de uma experiência de expansão da consciência – o Estado Não Ordinário de Consciência (ENOC) – do indivíduo. Ela está presente não apenas nas artes plásticas, mas em toda a forma de expressão artística. 

Embora algumas pessoas possam pensar que seja algo atual, seria um grande equívoco, pois é bem mais antiga que os próprios “registros feitos nas paredes das cavernas pelos xamãs ou as misteriosas espirais esculpidas nas rochas megalíticas”, como já mencionava Laurence Caruana no “Primeiro Manifesto da Arte Visionária” ou até mesmo pelo pesquisador David Lewis-Williams em seu livro “Inside the Neolithic Mind: Consciousness, Cosmos and the Realm of Gods”.

Um grande estudioso brasileiro no assunto, José Eliézer Mikosz, mais conhecido como Antar, menciona que a experiência visionária pode ocorrer de duas formas: através da trajetória normal e trajetória intensificada. Na trajetória normal, como o mesmo já sugere, o indivíduo sai do “Estado de Vigília” (o estar acordado) e vai passando por etapas até atingir estados mais profundos do inconsciente durante o sono. 

As imagens que aparecem mentalmente são registradas plasticamente pelos artistas, independente da forma utilizada. Um exemplo é o caso do artista plástico suíço H.R. Giger, no qual suas pinturas e esculturas são representações das imagens que surgiam dos pesadelos.

Em “Necronomicon”, obra composta por uma série de pinturas de seres híbridos que exploravam a relação do corpo humano e a máquina, denominado por ele de “biomecânicas”, apresentam uma atmosfera obscura, perturbadora e, ao mesmo tempo, muito sensual.

A arte visionária de Giger também esteve presente no clássico filme de ficção científica “Alien: o oitavo passageiro”(1979), do cineasta Ridley Scott, que durante a pré-produção, buscava inspiração para criar a imagem do extraterrestre Alien. Ao entrar em contato com as obras artista plástico surrealista, Giger assina  tanto criação do personagem quanto aspectos visuais do longa-metragem.

No entanto, também há outras formas, como, por exemplo, práticas meditativas, isolamento total e ingestão de substâncias psicoativas (assistido por uma equipe profissional), que podem induzir ao ENOC. Com isso, é possível trazer à tona imagens mentais de lugares mais profundos da mente humana. 

Segundo Antar, a trajetória intensificada leva o indivíduo a um desvio que passa do estado de semiconsciência para o denominado de fenômenos entópticos, considerado o primeiro estágio do ENOC.

Nesta fase, é comum surgir figuras e padrões geométricos. Em seguida, passa-se por mais dois estágios, sendo que o segundo aparece formas icônicas que estão ligados tanto ao repertório quanto ao estado psicológico do indivíduo no momento. Quando atinge o terceiro, há relatos de ver espirais, vórtices e túneis. Assim, vai imergindo cada vez mais na experiência. 

O pintor peruano Pablo Amaringo, por exemplo, é um artista visionário, possui uma vasta obra que impacta e impressiona o observador/público, como pode ver a seguir.

Nem todos os artistas são considerados visionários. A questão não está na experiência, técnica ou estética, mas no produto final.  O artista visionário “transcende nosso modo ordinário de percepção” e consegue ver o invisível. Dessa forma, tenta traduzi-lo materialmente, que também não será o todo da experiência vivida pelo artista. 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Publicitária, blogueira, produtora e cineasta. É cofundadora do EntreLinha Blog, do Coletivo PAUSA e da websérie "Uma Pausa para o Café...", além de colunista do Design & Chimarrão.