A batida do brega entre Bárbara Wagner e “Amor Plástico e Barulho”

por Matheus Souza, artista e ilustrador

Desde que vi o trabalho “Mestres de cerimônias” (2016) e “Estás vendo coisas” (2016), de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, respectivamente, na 32ª Bienal, relacionei imediatamente com o filme de Renata Pinheiros: “Amor Plástico e Barulho” (2013), ambos são trabalhos do campo audiovisual e que abordam a temática do brega e do funk de Recife.

Enquanto Pinheiros levanta a bandeira do cinema pernambucano, Wagner apresenta características de vídeoarte e também documentais, que nos deixam incertos, fazendo jus ao tema “Incerteza Viva”.

"Estás vendo coisas” (2016), de Benjamin de Burca

As definições entre vídeoarte e documental se confundem no trabalho de Bárbara, pois apesar de servir como registro de uma produção que ocorre no Recife, ela abre mão da linearidade, jogando dúvidas ao expectador, deixando uma reflexão que toma um rumo de dúvidas e sugestões incertas.

Ainda no trabalho “Estás vendo coisas” ocorre um grau de artificialidade através do espaço em que as pessoas se relacionam, com luzes coloridas e toda a cenografia dessa cultura, que podem dar a sensação de estar fugindo do contexto documental e de apresentar uma realidade, enquanto que nessa contramão “Amor Plástico e Barulho” é registro fictíciomasas característica cenográficas apenas fazem do filme ainda mais verossimilhante, mesmo que nas cenas mais oníricas, afinal apresenta a montagem de uma artificialidade proposital desse movimento, o que fica mais latente então na série de fotografias “Mestres de cerimônias”, que vai buscar por um enquadramento sempre que do bastidor da produção.

“Mestres de cerimônias” (2016), de Bárbara Wagner

Para além de fazer cenários, mas a criação de suas músicas (que no filme de Pinheiros é maravilhosamente produzida pelo DJ Dolores), clipes e o material necessário para divulgação de seu trabalho, o movimento do brega faz com que seja colocado a mão na massa, esse tipo de trabalho é como uma questão autônoma da produção cultural onde artistas locais se propõem fazer, essa cultura fortalece a questão de representatividade e da cultura do “faça você mesmo”, herdada por diversos outros movimentos como o lo-fi, punk e o hip-hop.

Cena do filme “Amor Plástico e Barulho” , da diretora Renata Pinheiros

Ainda assim a cultura do brega que contém elementos eróticos, amorosos e de ostentação, apresenta em determinados momentos o machismo, da qual Bárbara Wagner faz de evidência para discussão em seu trabalho. “Amor Plástico e Barulho” não fica distante da discussão de empoderamento feminino, pois apresenta duas protagonistas mulheres, (Nash Laila e Maeve Jinkings) em diferentes fases da vida, mas com uma relação que se cruza entre ascensão e redenção.

Essas interligações servem também para certificar a notoriedade e quase uma tendência que o brega e a produção cultural de Recife vem tomando seu espaço e da sua produção cultural que vem sendo construída, uma linguagem muito própria e quase ingênua que se por um lado reafirma sua representação, por outro pode tornar-se mais um produto cultural e servir de moeda de troca ou veículo para influenciaro consumismo de seus artefatos.

Para mostrar essa notoriedade desse estilo do brega, deixo aqui algumas recomendações como Gaby Amarantos e Gang do Eletro, já para mostrar como isso se tornou uma tendência e que eu vejo mais como uma apropriação cultural, é a Banda Uó.

Os registros em foto de Bárbara Wagner “Mestres de Cerimônia” é uma das obras selecionadas para a 32ª Bienal de São Paulo – Itinerância no Sesc Campinas, a visitação acontece de 15 de fevereiro a 30 de abril. Terça a sexta, das 8h30 às 21h30. Sábados, domingos e feriados, das 9h30 às 18h no Galpão Multiuso. A visita é gratuita.

 

 

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