A Dança da Morte na Melodia do Silêncio

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Por Ana Paula Bagarolo Racaneli, redatora e mestre em Artes Visuais pela Unicamp

Em mais um dia de sol intenso no Oeste, três homens com longas capas bege aguardam a chegada do trem em sua estação. Não querem bilhetes, mas também não pretendem viajar. De arma em punho, eles apenas esperam, no mais puro tédio que resume a palavra. Um está embaixo de uma goteira, bebendo a água que se acumula em seu chapéu. Outro brinca com uma mosca, que passeava por sua barba por fazer. O terceiro cospe no chão. O vento. A expectativa. O apito. Ele anuncia que a espera chegara ao fim. Os três tomam posição estratégica, aguardando alguma coisa. Ou alguém. Engatilham suas armas e, mais uma vez, esperam. O trem descarrega os itens que para ali se destinam, mas ninguém desce. Os homens observam atentos. Nada. Novamente o apito, e o trem começa a andar, partindo. Os homens abaixam suas armas e viram as costas, prontos para irem embora. Nesse momento ouve-se o som de uma gaita. Eles param e viram-se rapidamente, com as armas novamente em punho. Assim que o trem termina de passar, um homem revela-se por detrás dele, do outro lado do trilho. Ele tem uma gaita em mãos.

Este é apenas o início, a abertura, com aproximadamente doze minutos, do filme “Era uma vez no Oeste”.

Sua trilha sonora: o ”silêncio”, ou melhor, todo ruído, que por causa do silêncio, toma uma proporção tamanha que acaba por compor toda sua ambientalização, do começo ao fim.

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Dentre seus personagens, cada um apresenta uma trilha sonora característica, e toda vez que um deles entra em cena, sua trilha é tocada ou mesmo o inverso. Como por exemplo, o personagem de Charles Bronson (o Gaita), que a cada aparição, dentro do silêncio ruidoso, é precedida do mesmo solo de gaita. Cheyenne (Jason Robards) tem como sua trilha uma melodia mais ritmada, característica de velho oeste, mas com certa pitada de ironia. E por último Frank (Henry Fonda), que apresenta uma trilha mais dramática, mais séria em relação às outras duas, por se tratar do grande vilão da trama.

O ritmo do filme é lento, calculado, sempre criando expectativa para o que vai acontecer a seguir e como o que está na tela irá terminar. A tensão entre os personagens é transmitida ao espectador através destes momentos de silêncio, onde os mais singelos ruídos, como cigarras que param de cantar, ou uma rajada de vento mais forte, fazem personagens estremecerem.

Quando dois personagens estão no mesmo local, percebe-se a hibridização de seus temas, que se misturam criando uma nova sensação ao escutar as músicas, transformando-as numa nova melodia. Isso se aplica no duelo final entre Gaita e Frank, quando se entreolham, por alguns instantes e vemos um flashback que amarra e justifica quase todas as ações do filme.

Outra característica de tensão frequente no filme é os closes ups de rostos e planos detalhes dos olhos dos personagens. Suas expressões faciais compõem a paisagem do filme, alternando cenas longas de tomadas panorâmicas das locações.

Leone demorava horas fazendo planos simples, para poder alcançar a mais perfeita estética que estes planos poderiam gerar. Deixava que cada um tivesse o seu significado. Chegava a controlar a quantidade de poeira que estaria em cada roupa de seus atores, e utilizou fotos de época exigindo o máximo de fidelidade de sua equipe na hora de criar a arte do filme.

O resultado foram alguns planos memoráveis segundo produção e elenco, como quando Jill chega à cidade e o espectador ainda não tem uma visão do local. Vê-se apenas alguns planos da estação de trem e, quando ela atravessa essa estação, a câmera fixa por uma pequena janelinha. Após a grua levar a câmera ao alto, tem-se noção da dimensão da cidade construída para o filme.

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As melodias de “Era uma vez no Oeste” são de autoria de Enio Morricone, que as concebeu antes que as filmagens se iniciassem, pois o intuito de Leone era ditar o ritmo do filme de acordo com estas melodias.

A trilha sonora “silenciosa”, e rica em ruídos tem influências do trabalho do músico e compositor John Cage, que compôs a obra 4'33'', “que é o tempo que os artistas ficam em silêncio no palco segurando seus instrumentos, e cuja reação da platéia costuma ir da surpresa à indignação” e determina que todos os sons de um teatro fazem parte da apresentação, não apenas os instrumentos que compõem a música.

Segundo Sir Christopher Frayling afirma que o filósofo francês Jean Baudrillard considera Sérgio Leone o primeiro diretor de cinema pós- moderno, pois além de fazer filme sobre filmes, utiliza de artifícios e idéias inéditas não só para o gênero faroeste, mas para produzir filme. É pioneiro em ter uma mulher como eixo de uma história do gênero, pois até então, uma personagem feminina era sempre secundária e se tratava de “santas ou prostitutas”, e Jill foge a regra. Ousou também ao colocar Henry Fonda, que sempre fez mocinhos, para interpretar o cruel vilão, utilizando tomadas de suspense para revelá-lo ao espectador.

Quanto a relação com as condições sócio-cultural e estética do capitalismo, não há uma afirmação concreta da existência de um elo com a obra de Leone, mas é discutível a existência de relações com aspectos políticos. Esta hipótese pode ser levantada devido ao modo com que os personagens agem em relação ao dinheiro, mas não há o que possa comprová-la.

Indiscutível é que “Era uma vez no Oeste” é uma obra de arte poética e sensível, e que ignora todos os clichês do cinema. Como o próprio Leone se refere ao filme, “Era uma vez no Oeste, é do começo ao fim, uma dança da morte”, onde a música dançada é a melodia do silêncio, do rosto tenso e do olhar de vingança.

 

 

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