A desconstrução da identidade de gênero na moda

 

As discussões sobre a questão da identidade de gênero surgiu como importante reflexão para o feminismo, que no final da década de 40, a filósofa francesa Simone de Beauvoir afirmou que ninguém nasce mulher, mas torna-se uma, ou seja, o “ser mulher” é, na verdade, uma construção social e cultural. 

De lá pra cá, o assunto tem sido cada vez mais pautado, tanto pela sociedade como no âmbito acadêmico; isso é algo muito importante e positivo, se for feito de forma saudável, é claro. Sim, é uma discussão necessária, pois a questão da identidade de gênero vai muito além das preferências sexuais dos indivíduos.

Infelizmente, ainda vivemos enquadrados em padrões pré-estabelecidos, em que representamos papeis femininos e masculinos. Ainda as crianças são presenteadas ou precisam vestir roupas associadas ao universo que o identifica biologicamente, determinado no século XIX, na qual Beauvoir já contestava.

Se observarmos atentamente, já havia outras culturas, como em tribos indígenas ou no antigo povo celta, as representações de masculino e feminino eram bem diferentes do que temos hoje. O icônico David Bowie, nos anos 70, já vinha desconstruindo estereótipo de gênero, ao usar maquiagens nos olhos, perucas, bijuterias, vestuário feminino. Bowie desferiu “um ataque radical à forma como o vestuário codifica e estipula os gêneros”. Nas passarelas, é iniciada por volta dos anos 80 pela Jean Paul Gaultier, hora e outra é revisitada por algumas grifes, como é o caso da Prada, Givenchy, Gucci e Louis Vuitton.

Atualmente, o filho do ator e diretor Will Smith, o jovem cantor e também ator Jaden Smith, é um nome que tem se destacado em relação à questão da desconstrução de gênero na moda. Ele é uma grande influência no tema, inclusive, chegou estrelar na campanha da grife feminina Louis Vuitton.

“Eu sinto que as pessoas estão meio confusas sobre normas de gênero. Sinto que as pessoas realmente não entendem isso. Eu não estou dizendo que eu entendo, estou apenas dizendo que eu nunca vi nenhuma distinção. Não vejo roupas de homens e roupas de mulheres, eu apenas vejo pessoas assustadas e pessoas confortáveis”, diz Jaden Smith à revista GQ Style britânica.

 

No Brasil, o ator Bruno Gagliasso tem causado bastante burburinho com seu novo visual. Em uma entrevista, mencionou que “a moda é livre, o ser humano que não é”. Algo que também concordo. Estamos amarrados a muitos pré-conceitos, desconstruindo estereótipo de gênero na moda é apenas um deles. 

Outro nome é o cantor e ator Liniker, do Liniker e os Caramelos, de Araraquara, interior de São Paulo, que também quebra os padrões pré-estabelecidos pela sociedade. Ele também veste roupas femininas, acessórios e maquiagens, tanto nos palcos como fora dele, no cotidiano.

Ao pensar nessa desconstrução de estereótipo de gênero na moda, não tem como deixar de mencionar sobre a polêmica em torno da campanha da C&A “Dias dos Misturados”, para o Dia dos Namorados, que dá continuidade à campanha “Misture, ouse e divirta-se, lançada em março deste ano. Dispido dos preconceitos e estereótipos, o filme publicitário convida as pessoas a abraçar a diversidade, algo que gostei muito. Ao mesmo tempo em que gerou uma reação contraria e boicote a marca, foi positivo por outro, pois levanta uma série de discussões que precisam ser debatidas.   

A sociedade em que estamos inseridos está em constante mutação, isso é um fato, não tem como negar. Essa nova proposta de moda genderless, uma moda sem gênero, que aposta no unissex, é algo que está cada vez mais crescente.  

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Publicitária, blogueira, produtora e cineasta. É cofundadora do EntreLinha Blog, Coletivo PAUSA e da websérie "Uma Pausa para o Café...", além de colunista do Design & Chimarrão.