“A Toca dos Dois Signos”: uma realidade alternativa

Assisti, recentemente, um curta-metragem brasileiro dirigido por Bruno Decc que, a princípio, o título “A Toca dos Dois Signos: Epílogo” me atraiu de cara.

O filme apresenta a história da humanidade por outro viés, uma realidade alternativa dominada pelos afros-descententes centrando-se em três personagens de eras diferentes: Jaga (Pré-História), Kaza (o Monge-Cientista) e Míriam (Modernidade).  

Jaga, mulher Pré-Histórica baseada no fóssil feminino denominada de Luzia, descoberta pelo antropólogo brasileiro Walter Neves, do Instituto de Biociência da Universidade de São Paulo, em Lagoa Santa, Minas Gerais, cujos estudos e características denotam que os primeiros povos habitarem o Brasil foi o negro. De forma subjetiva, a personagem nos leva a questionar sobre nossas raízes e aspirações. Ela protege um pequeno pedaço de carvão, enquanto ignora as ameaças microbiológicas. 

A outra personagem, retratando o período moderno, é Miriam. Uma cidadã considerada pela sociedade vigente como de segunda classe devido sua ascendência europeia que, segundo o cineasta, durante entrevista ao EntreLinha, "sofre o processo de marginalização e destruição de sua  autoestima de uma maneira que desafia as expectativas dos espectadores". 

O Monge – Cientista, o Kaza, que vive imerso em seu mundo, ideologias, luta para que seu método de teste e verificação seja aceito entre seus colegas. O mundo da ciência parece dominado por uma forma de intuição gerada pela ingestão de um misterioso líquido negro. No entanto, Jaga, Miriam e Kaza, cada qual em seu tempo, tem seus caminhos interligados por circunstâncias análogas.

“A Toca dos Dois Signos: Epílogo” é um filme experimental envolto por enigmas, que levanta vários questionamentos e joga ao espectador. Não, não há respostas prontas, mastigadas, pois não é esse o intuito do curta, mas sim de provocar uma reflexão crítica em torno de questões que ainda nos deparamos na contemporaneidade, tais como, a questão de gênero, a discriminação contra a mulher e a correlação dessa com etnia, em uma leitura interseccional.  

No filme, o figurino também exerce como um elemento essencial na narrativa. Assinada pela estilista Rita Comparato, o figurino simboliza a opressão cultural e sua violência que são impostas na sociedade, evidenciando essa realidade alternativa que o cineasta almejava transmitir no curta.

Premiado como Melhor Filme Experimental no VI Festival Aesthetica, um dos maiores festival de curtas da Inglaterra, “A Toca dos Dois Signos: Epílogo” pode ganhar, em breve, uma versão longa. Segundo o cineasta, Bruno Decc, seus planos é explorar mais a história do curta-metragem, que se passaria séculos antes, mostrando como houve essa inversão cultural. 

“A Toca dos Dois Signos: Epílogo” é um filme muito interessante e reflexivo, que vale a pena ser conferido. Agora ficamos no aguardo da nova versão do filme.

 

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Publicitária, blogueira, produtora e cineasta. É cofundadora do EntreLinha Blog, do Coletivo PAUSA e da websérie "Uma Pausa para o Café...", além de colunista do Design & Chimarrão.