“Adeus a Linguagem”: além da experiência visual

 

Aos 84 anos, o cineasta francês Jean-Luc Godard, um dos precursores da Nouvelle Vague – movimento que despontou no final década de 50 -, lançou, em 2015, “Adeus à linguagem”, um filme que vai muito além da experiência visual.

Logo no início, Godard deixa bem claro ao espectador que “todos aqueles que não possuem imaginação se refugiam na realidade”, ou seja, para mergulhar em sua inventividade é necessária a entrega. É preciso se permitir a experienciar o que está por vir. Será fácil?  Não, mas toda experiência com sua obra cinematográfica é sempre válida.

O filme é um ensaio/experimental, provocador e despretensioso. Quando os amantes, vividos pelos atores Helöise Godet e Kamel Abdelli, chegam ao ponto de não conseguirem mais se comunicar entre si, um novo personagem surge: Roxy.

O cão Roxy Miéville, animal de estimação do próprio diretor, que tudo observa, embora nunca estivesse presente, propriamente dito, com o casal, esse personagem metaforicamente acaba recriando uma ligação entre ambos. Como cita o escritor tcheco Milan Kundera: “os cães são nosso elo com o paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou descontentamento”. Ou seja, Roxy é, simbolicamente, é o elo de equilíbrio e conexão dos protagonistas. 

O cineasta levanta uma série de questionamentos através dos diálogos das personagens, que se mescla com a poética e questões filosóficas, e joga para o espectador refleti-las, mas nada é entregue mastigado. É preciso estar aberto.

“Adeus à Linguagem” causa um estranhamento a todo o momento. Incomoda, provoca, ao mesmo tempo. O filme é todo fragmentado inclusive os diálogos, o som apresenta ruídos (deixado propositalmente), há sobreposição de imagens, uma verdadeira colcha de retalhos. Como as pinceladas do artista na tela, em que é referenciado Monet, Godard pincela suas imagens com a câmera. Desconstrói, reconstrói e, assim, ressignificá-as com maestria, mas sem deixar de causar, a todo o momento, um estranhamento no espectador. 

A experiência com o 3D não é algo tão novo para Godard. Talvez a forma de trabalhar com essa tecnologia seja diferente do seu trabalho anterior, o “3x3D”, que é uma coletânea com três curtas-metragens dirigidos por ele e os cineastas Peter Greenaway e Edgar Pêra que, infelizmente, ainda não tive a oportunidade de conferir. O fato dele usar o 3D, com certeza, não foi por acaso, principalmente a forma empregada em “Adeus à Linguagem”.

O filme não é fácil. É denso, complexo, profundo e poético. Precisei de um tempo para degustá-lo, digeri-lo e, assim, absorver e analisar um pouco desse todo que Godard quer passar em “Adeus à Linguagem”, que não é pouco.

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.