[Agenda Cultural] Espaço Cultural Índigo exibe o documentário “Sonho Pequeno”

O documentário do diretor Fernando S. Ribeiro, "Sonho Pequeno", produção independente que retrata de forma sensível um trauma familiar relacionado à violência doméstica contra a mulher, será exibido neste sábado, dia 06/04, às 19h, no Espaço Cultural Índigo, situado na Rua Boa Vontade, 75, térreo, em Bragança Paulista. Ao final da sessão haverá um bate-papo mediado pelo Terapeuta Junguiano Jairo Ferrandin.

Para conferir o filme é necessário se inscrever através do e-mail do Espaço (indigoarte8@gmail.com) ou pelo telefone (11) 97140 – 1828. A contribução sugerida é R$10. Imperdível!

Confira a seguir nossa crítica.

 

“Sonho Pequeno”: a vida pede passagem

por Erica Ribeiro

 

 "Sonho Pequeno", de Fernando S. Ribeiro, é um filme que iniciou com a proposta de um curta-metragem, mas ganhou outras proporções à medida que o diretor ia debruçando sobre o objeto retratado. O diretor leva o espectador a mergulhar na história que narra um trauma de família ocorrido há quase quarenta anos, em que a matriarca revisita, bem como alguns de seus filhos e familiares, esse passado que deixou muitas marcas.

O documentário atemporal incita a reflexões sobre as urgências cotidianas, mas de situações que ainda estão enraizadas em nossa cultura, como, o machismo, preconceito, a violência doméstica e contra a mulher, além do seu papel  na sociedade. O diretor dá voz a essa mulher que há tantos anos foi apenas reprimida, nunca ouvida, empoderando-a.

Outro ponto que o filme assinala é sobre a importância da arte no processo do autoconhecimento e no resgate da autoestima, a qual contribui de forma profunda e regeneradora do ser humano. No caso de Maria Ceila, foi à música e a poesia que  a sustentou nos enfrentamentos das adversidades que se apresentavam em seu caminho. Segundo a antropóloga Ruth Benedict, no livro “O Crisântemo e a espada”, a arte também “ têm o poder de humanizar a sociedade, de resgatar a autoestima e promover o exercício da cidadania”.

"Sonho Pequeno", que de pequeno não tem nada, é um projeto fílmico que, desde a primeira exibição teste, me deixou muito emocionada, coração apertado, sem palavras, pela intensidade e, ao mesmo tempo, com um distanciamento necessário para retratar esse trauma familiar. 

É um filme que continua mesmo após os créditos finais, é como se levássemos um chacoalhão. Uma situação que pode estar mais perto do que imaginamos, dentro da nossa própria família, no vizinho, de algum amigo, conhecido, mas está ali, é uma dor que lateja, não só como pessoal, mas uma sociedade ainda doente.

O diretor nos coloca diante de uma realidade através de um olhar tão particular que nos arranha. Cria-se uma proximidade das personagens com os espectadores, cada qual pode ou não se identificar com algum ponto específico, independente qual lado seja. Mas uma coisa é certa, não tem como ficar ileso diante do que vemos.

Ainda em desenvolvimento, o documentário “Sonho Pequeno” é projeto autoral, poético e sensível, que a cada camada inserida, o diretor realiza exibições há grupos diversos, ao qual vai construindo, nesse processo, algo mais dinâmico e tendo um feedback e impressões geradas no público, que tem sido enriquecedora, não só para o filme em si, mas ao próprio realizador e o público que assiste. Veja o trailer aqui.

Abaixo, segue o poema "Coragem da Vida", do escritor e jornalista Armando Martinelli, em homenagem a protagonista Maria Ceila e família, ao documentário "Sonho Pequeno, que tanto nos toca.

 

   Coragem da vida

   

    Pede passagem a coragem da vida
    Envolta em armadilhas viris
    Cruéis destemperanças
    Pulso do impulso motriz
    Lírica do amor criança

    Pede passagem a força da família
    Laços entrecortados
    Abraços adiados
    Passos desviados ao alvorecer
    Soluços na memória
    Lágrimas irmãs do presente renascer

    Pede passagem a vertigem poesia
    Liberta na essência
    Na luz intrínseca ao movimento
    Desafia o tempo
    Desfaz armaduras
    Repele o refém sofrimento

    Pede passagem a mulher sinfonia
    Solo diário em completude
    Moldura exposta em versos
    Calmaria do caminhar inquieto
    Notas inconsciente
    Canções do despertar eterno

     
    Armando Martinelli

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e cofundadora do EntreLinha. É cinéfila, amante das artes e da literatura.