[Análise ] “Westworld” S1: consciência, existencialismo e ética

“Westworld” chegou para nos mostrar que definitivamente precisamos discutir muito ainda sobre uma ética no que se refere à tecnologia, principalmente, a robótica e androide. A mecanização da vida, resultado das inserções tecnológicas advindas da revolução industrial, já nos deu muitas questões ideológicas a serem problematizadas. Mas a fundamentação ética é sempre a mesma: a substituição do homem pela máquina.

A série (que você confere a sinopse aqui) é baseada no romance homônimo do escritor Michael Crichton, que deu origem ao filme clássico de 1973, “Westworld – Onde Todos Não Têm Alma”, agora adaptada para a televisão.

O enredo tem como base a busca por um propósito na vida, que é inerente em qualquer ser pensante, através de narrativas construídas tanto dentro do parque para que os visitantes possam participar, como para o espectador que busca, junto com os personagens, viver e pensar os problemas que resultam as interações.

Histórias servem mesmo para isso. As narrativas possuem o poder de discutir e compreender a realidade, e a nós mesmos. Os mitos nos mostram que as histórias contadas pelos nossos ancestrais eram sempre em busca da origem de tudo, o que traria consigo uma motivação e, logo, um propósito.

Há uma metalinguagem, onde a narrativa central da série se preocupa em contar com detalhes a narrativa do parque. Tanto que, ao longo dos acontecimentos, nos envolvemos demais nas duas estruturas a ponto de misturarmos o que é a série e o que é o ciclo narrativo do parque. Com o tempo, os limites entre elas se desvanecem, e esse lugar de mistério e desconfiança em que o espectador se coloca é potencializado pela estética dos irmãos Nolan e sua forma ilusória de paralelismos atemporais.

Jonathan Nolan dirige e assina o roteiro juntamente com Lisa Joy. Essa estética “nolanista” foi iniciado junto com seu irmão Christopher em filmes como “O Grande Truque”, em que ele aborda diretamente o tema do ilusionismo para dar o efeito à narrativa; em “A Origem”, ele cria uma narrativa ilusória ao mexer com o tempo da memória; já em ”Interestelar”, ele aborda o tema espaço/tempo de forma mais científica.

Dr. Ford, ao fundar o parque junto com seu sócio Arnold, privilegiava as narrativas, as repetições e os ciclos, tornando os anfitriões ainda mais controlados e presos às suas histórias. Já Arnold, admirava a capacidade que os anfitriões adquiriram de improvisar a partir de acessos à memória, produzindo o que eles chamavam de “devaneios”. Essas duas vertentes ideológicas entraram em conflito e, após um trágico desfecho que culminou na ausência de Arnold, Dr. Ford pôde tocar as narrativas à sua maneira.

Porém, logo percebeu a potencialidade das experiências relacionadas à memória, e as inúmeras possibilidades de improvisações que tornavam a interação com os anfitriões ainda mais verdadeira, oferecendo aos visitantes experiências mais próxima das emoções reais.

Com o tempo, o parque passou a ser para Dr. Ford um meio de conhecer a realidade humana, sem mesmo depender dos seus instintos e inteligência, transpondo aos androides as características de um ser e evoluindo assim sua heurística.

A Teoria do Pensamento Bicameral

Embora pouco conhecido no Brasil, Julian Jaynes (1920-1997) foi um dos mais originais filósofos da mente do século XX e autor da Teoria do Pensamento Bicameral, publicado em sua obra "The Origin of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind", de 1976.

O conceito da mente bicameral, que inclusive intitula o último episódio da primeira temporada, sugere que o homem alcançou um nível de consciência mais avançado ao longo dos anos, a partir da evolução linguística. Através da linguagem, adquirimos consciência emocional e introspectiva, o que nos levou a ver o mundo de outra forma, soltando um pouco as amarras dos deuses criadores e agindo com mais autonomia. Na série, Bernard exemplifica essa teoria quando diz que suas criações conversam entre si para que corrijam suas falhas e possam parecer mais reais.

Consciência, basicamente, é a capacidade do ser de perceber a relação entre si e um ambiente, além da noção das emoções internas de cada indivíduo. Essa consciência (ou a sua ausência) do mundo ao redor é toda a base de questões que alicerça essa história: a capacidade de conseguir enxergar além das narrativas, e perceber o poder que exerce força sobre os anfitriões.

A personagem Maeva Millat (Thandie Newton), em determinado momento da série, toma consciência da sua realidade. A partir dessa descoberta, ela busca modos de subverter os seus ciclos, buscando assim um caminho para sair do parque. Maeva vai muito além. Ao descobrir-se androide, se dá conta de que aqueles que acreditava serem os deuses, são apenas humanos mais frágeis do que ela.

Decide então tomar suas próprias decisões e definir o rumo de sua história. Porém, ao perceber que não consegue desfazer-se de suas trágicas memórias, mesmo que criadas e implantadas, opta por ir em busca do seu passado, escolhendo viver a ilusão da experiência emocional, onde cria um plot paralelo, que se desloca da narrativa do parque e mistura os limites entre simulacro e mundo real. A personagem cria a grande pergunta da temporada: os androides irão se inserir ao mundo real?

Robert diz abertamente que suas histórias não são apenas para os visitantes humanos, mas são escritas também para que os androides as vivam. O parque, que de início fora criado para satisfazer os desejos mais íntimos dos humanos, se coloca como um grande simulacro de um mundo em que podem vivenciar histórias de forma tão intensa, que a sensação de realidade se torna palpável, com sentimentos verdadeiros, mas que, com o tempo, acabou tornando-se um parque para os androides evoluírem.

O autoconhecimento é uma forma de libertação para os androides anfitriões, evidenciando a intenção de Dr. Ford de criar narrativas para os robôs: a libertação da mente aprisionada na alienação, desde a questão do bicameralismo aos símbolos xamânicos como o labirinto, que representa a busca interior.

Trago aqui a grande questão sobre os androides que a série levanta: a representação de um objeto, por mais parecido que ela seja do seu referente, têm o poder de se tornar o próprio objeto ao ignorar a sua natureza? Ou seja, um androide que representa e expressa as emoções humanas e seu comportamento, baseadas em “Big Datas” que recriam ações extremamente realistas, pode se tornar um verdadeiro humano ao ignorarmos a sua natureza robótica?

Vamos ver o que a segunda temporada tem a nos responder.

Aline Barros

Aline Barros

Alérgica a leite, viciou-se em café só para poder usar xícaras. Designer gráfico, mãe, blogueira e amante das artes em geral, troca facilmente um par de sapatos novos por um livro velho.