Aos desiludidos do amor, a poesia

 

 

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício

 da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos,

na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos

do sofrimento, perdemos também a felicidade.”

Carlos Drummond de Andrade

 

A poesia sempre esteve presente na minha vida. Recordo que desde a minha infância, entre os livros que retirava na biblioteca, sempre tinha um de poesia que me acompanhava. Dentre alguns poetas que me fascina, admiro e amo, está Carlos Drummond de Andrade. 

Hábil ao lidar com as palavras, a sua poesia apresenta uma característica própria e traz em si a presença das cenas cotidianas, questões sociais, históricas, e as reflexões existências. Marcado pela ironia e o humor, que às vezes aparece mais melancólico, ora mais amargo, ou ambíguo e outras provocador.

No poema “Necrológio dos desiludidos do amor”, publicado no livro “Antologias Poéticas”, em que me debruço nesse momento, gira em torno da desilusão amorosa que leva o indivíduo ferido a cometer um ato contra sua própria existência em nome de um suposto “amor” na esperança de que o ser amado sinta na pele e sofra as consequências de seu próprio ato suicida, o remorso.

 

“(…)

  Desiludidos mas fotografados,

  escreveram cartas explicativas,

  tomaram todas as providências

  para o remorso das amadas.

  Pum pum pum adeus, enjoada.

  Eu vou, tu ficas, mas nos veremos

  seja no claro céu ou turvo inferno.”

 

Com tom cético e uma boa dose de ironia, o poeta Carlos Drummond de Andrade atenta que esse ato insensato e manipulador é inútil. Embora isso possa abalar o outro, talvez de forma significativa, é uma inutilidade. A vida, com ou sem a morte – seja ela física ou a morte simbólica – continua. É preciso seguir. 

É importante observar que, tanto em “Necrológio dos desiludidos do amor” quanto em outros poemas de Drummond, o conteúdo sempre leva o leitor a refletir sobre as relações, o cotidiano e a sociedade, além do forte questionamento a respeito do sentido da vida.  

Confira o poema completo interpretado pela atriz Fernanda Torres. 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e cofundadora do EntreLinha. É cinéfila, amante das artes e da literatura.