As notas de um pintor, o trabalho de Gerhard Richter

por Matheus Souza, artista e ilustrador.

O pintor alemão Gerhard Richter pode ser considerado como um dos maiores artistas vivos no século XXI. Em seus escritos, entre o período de 1964-1965, o pintor fala de seu trabalho como uma “pintura inconsciente” devido ao desprendimento do consciente (que seria o trabalho com precisão e exatidão). Essas notas, que marcam um dos períodos em que atinge o ápice de sua maturidade artística, são importantes por indicarem o transcendentalismo e suas preocupações subjetivas com a pintura foto-realista não convencional e as motivações para seu trabalho.

Ter a fotografia como modelo de referência para seu trabalho expressa ainda mais o interesse desse objeto como pesquisa pelo artista, devido a subjetividade que atrai seu interesse e o motiva a selecionar imagens para seu trabalho. Isso é como um processo em que apenas as imagens que despertam algum interesse no pintor são selecionadas para passar pelo processo de se tornarem quadro, objetos artísticos de fato.

Turmspringerin II (1965)

O valor da realidade, capturada pela fotografia, passa ser instrumento de trabalho para Richter, pois ele se utiliza dessa referência para criar alterações e deformar em suas pinturas. O registro do real é necessário para a libertação das possibilidades gráficas que o artista pode explorar, especialmente, como pintor. Do ponto de vista de Richter, a foto em si já seria um quadro, mas serve a ele como material de trabalho para que ele possa criar suas intervenções artísticas.

Nesse trabalho, das deformações surgem borrões e manchas que podem sugerir uma contextualização do período histórico, social e político da época, já que ele se utiliza de fotos de sua família como referência. Essas imagens, por sua vez, podem apresentar pessoas ligadas a ele, Richter, e com algum tipo de envolvimento político (seja relacionado ao período nazista ou da época em que ele desenvolve os trabalhos na Alemanha Oriental socialista). Assim, o artista utiliza os borrões e manchas para ocultar as identidades das pessoas no quadro, preservando a integridade delas.

O uso dos borrões e manchas, observando os movimentos e acontecimentos da história da arte, pode ser considerado um meio de reinvenção da pintura e de transgressão, já que o artista não fica refém de uma técnica. O recurso foi utilizado pelas vanguardas contestatórias e iconoclastas como, por exemplo, o impressionismo e o fauvismo, quando os artistas buscavam novos métodos de representação pictórica em suas obras, já que a fotografia estava caminhando como meio para alcançar a realidade perfeita.

 Krankenschwestern (1964)

Frau in Bad (1965)

Sänger (1965)

Richter possui uma admiração e um fascínio pela imagem (devido sua peculiaridade em selecionar), podemos perceber ainda mais que são imagens que contenham alguma coisa que se relacione com ele, que tenha um vínculo. Estarmos nos referindo a fotografias de seu acervo – e só a partir dele e de sua seleção é que seu trabalho irá surgir -, que despertam fascínio ou adoração que são expressos através da execução de seu trabalho com a pintura, criando intervenções ao seu modo na imagem, dando continuidade a essa série de obras.

 O pintor também diz que apesar das diferenças entre a fotografia e a pintura, em suas obras ficam evidente marcas que separam esses dois campos técnicos, mas ao colocar isso no quadro, ele está sintetizando e expondo toda a sua pesquisa e motivações. As marcas que separam esse caminho são manchas e borrões que se entendem como elementos abstratos, porém suas obras, assim como uma das características do cubismo, utiliza do abstrato mantendo o figurativo.

Pode-se dizer então que, como questão técnica descrita desse período de produção, o artista utiliza da fotografia como musa inspiradora e modelo para seu trabalho. Richter compara o uso de suas fotos para a pintura como outros artistas do período renascentista pudessem usar um desenho como referência para pintar ou até mesmo recursos que utilizassem da observação de modelos na execução de seus trabalhos. No entanto, sua produção artística  ainda continua, porém, não necessariamente com o mesmo estilo, mas partindo para novos interesses de pesquisas que revelaram uma intensa experimentação que ainda assim parte do subjetivismo que motivaciona o artista.

Soraya (1967)

Quando busca por uma definição de pensamento na linha ideológica, o artista acaba por se mostrar um tanto quanto rígido por declarar que estpa passível de interpretação ou possuir um sentido não é bom. Essa afirmação revela a autonomia de seu trabalho, como se estivesse executando a arte pela arte, desligando de qualquer funcionalidade ideológica política ou religiosa como foi respectivamente a arte construtivista ou a arte barroca. Isso demonstra ainda mais a propriedade do artista e de sua poética, por saber a multiplicidade dos caminhos de pensamento que um trabalho como o seu pode seguir.

Essa forma de pensar pode parecer demasiadamente extrema, mas aponta sua capacidade de compreender que seu trabalho desperta o potencial de estar inserido no mundo, de modo que não busque apenas representar de alguma forma a realidade como a fotografia já faz, criando um pensamento da diferença, fazendo de seu trabalho uma preocupação e um atividade contemporânea.

 

 

* Imagem da Capa: obra "Renate and Marianne (1964), de Gerhard Richter

** Outras obras do artista podem ser conferidas aqui

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