Bacurau

Por Nádia Barbosa, poeta e doutora em Literatura Comparada (nadige@gmail.com)


Sob o céu do sertão pernambucano está Bacurau do futuro. Lugarejo pequeno, alegoria de um grande país. Bacurau é alvo da mira dos snipers do Império. Desprezado por sua maior autoridade política, o povoado é alegre, rico em terras, em cultura, em diversidade e, o que é mais admirável, o povo de Bacurau é extremamente unido por elos culturais e por um ethos dos, historicamente, excluídos: os negros e suas crenças ancestrais, a bêbada, o gay, a lésbica, o travesti, a puta, os velhos e as crianças pobres e o cangaço queer, “pós-moderno”, mas, ainda, à moda de Lampião (anjo/capeta, bandido/herói).

É o vilarejo que protagoniza o filme e os personagens são partes dele, sem nenhuma hierarquia. O elenco, que encarna as personagens com seus rostos, cores, corpos, falas, andares, canto, olhares, nos remete ao cinema de Glauber Rocha, dada a visceral verossimilhança dos atores que, primorosamente, representam a gente comum brasileira. Mas não é, exatamente, só o Cinema Novo a única referência feita pelo filme, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. O filme, além de dialogar com diversos gêneros, faz diversas referências. Talvez a dose maior da mistura venha do cinema do americano John Carpentier, o João Carpinteiro, que dá nome à única escola da cidadezinha. O terror e a ficção científica, sugestionados por Carpentier, misturam-se à estética do Cinema Novo e a certa porção generosa do faroeste à la Tarantino, dando forma a Bacurau.

Dias tranquilos e pacíficos, a comunidade unida do povoado compartilhará, a despeito das dificuldades decorrentes da ausência de vontade política de seu dirigente, o prefeito Tony Júnior, que tenta resolver o problema do lugarejo eliminando-o, literalmente, do mapa, por meio de um jogo bizarro e perverso com um grupo sanguinário de snipers, “os turistas”, que se empenhará, tal qual personagens de vídeo game, em exterminar toda população local.

Depois de uma visita eleitoreira do prefeito, a rotina da cidade começa a mudar: o povoado some do mapa, um disco voador aparece sobrevoando a região e moradores são barbaramente executados, crianças inclusive. Porém, há resistência, crível e fascinante, das gentes de Bacurau, porque quem nasce em Bacurau é “gente,” como dirá o menino da mercearia à forasteira, alusão irônica perfeita à classe média “branca” brasileira.

Ser nordestino no Brasil significa conviver no dia a dia com pequenos preconceitos que, colecionados, podem se transformar em cinema grande, diz Kleber Mendonça Filho. Todos esses preconceitos estão no filme. Nada de pequenos, eles são o start dos argumentos que emergem de forma abrupta e violenta na cena nordestina, brasileira e terrestre de Bacurau.

Diz-se que o filme começou a ser trabalhado em 2009, logo, tem “um quê” de profético. O Império é metaforizado pelos snipers, arianos, fortes, saudáveis e nazistas, que querem se apoderar do vilarejo, com a anuência do prefeito da pequena cidade. Mas, os invasores desconheciam que no passado desse lugar surpreendente estava mudo e preso o talento especial e muito carismático de Lunga. Sim, Bacurau tinha Lunga, o cangaceiro queer. Lunga nos remete a “Seu- Lunga”, nordestino repentista, cuja fama era de um homem bravo e mal educado.

O nome “Lunga”, foneticamente, lembra Lula, também nordestino, um homem enfático e sem etiquetas. Lunga irá organizar e liderar a resistência de Bacurau, e esse povo, consagradamente pacífico, sob efeito de um psicotrópico caseiro, vai à luta e rende o Império. A vitória é dedicada aos mortos de Bacurau, àqueles estupidamente assassinados cujos nomes são citados com sobrenomes trocados, Marielle, Mariza Letícia, Artur e outros.

O filme é tudo isso e muito mais. É louvável assisti-lo e se surpreender com o trabalho admirável e competente dos diretores, roteiristas e elenco. O Brasil é Bacurau. Bacurau é aqui.

Autor Convidado

Autor Convidado

Gostaria de ter seu texto publicado no Entrelinha Blog? Entre em contato com a gente!