Berlinale 2020: Produções brasileiras estreiam na 70º edição do Festival de Berlim

Em 2019, o Brasil dispediu-se da 69º edição da Berlinale – Festival Internacional de Cinema de Berlim, última sob a direção de Dieter Kosslick, com dois filmes premiados: o documentário "Espero tua (re) volta", da diretora Eliza Capai, e o curta-metragem "Rise", da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, exibindo no total 12 filmes brasileiros. E neste ano, retorna ao Festival, que acontece entre os dias 20 de fevereiro a 1 de março, estreando 19 produções cinematográficas, entre longas e curtas-metragens, distribuidos por todas as Mostras.

Sem data para estrear no Brasil, o novo filme do cineasta brasileiro Karim Aïnouz, o documentário "Nardjes A.", selecionado na mostra Panorama, que apresenta filmes que abordam questões urgentes e "mostram o poder da resistência e o escopo do que é possível", é uma das produções que representará o Brasil na Berlinale.

Através da perspectiva da ativista Nardjes, o diretor retrata o momento em que a jovem se une a a milhares de manifestantes, que tomam as ruas de Argel, na Argélia, no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, em luta para derrubar um regime que os silenciaram por décadas.

Na disputa pelo Urso de Ouro está "Todos os Mortos", com direção de Caetano Gotardo (O que se move, de 2013) e Marco Dutra ("As Boas Maneiras", de 2018, juntamente com Juliana Rojas). O filme, ambientado nos anos de 1899, em São Paulo, retrata a trajetória de duas famílias: uma de classe alta, os Soares, que com o fim da escravidão perdem suas posses e precisam se adaptar a uma nova vida; e a outra, os Nascimento, família negra que busca um lugar nesse nova sociedade.

Em "Todos os Mortos", a trama levanta o debate um debate profundo sobre o racismo, suas fraturas e cicatrizes históricas, que ainda ecoam na contemporaneidade brasileira, apresentando mulheres fortes como personagens centrais da obra. 

O diretor Matias Mariani ("Ela Sonhou que eu Morri", de 2010, juntamente com Maíra Bühler), faz sua primeira estreia na Berlinale.  "Cidade Pássaro", que será exibido na mostra Panorama, mostra a trajetória do músico nigeriano Amadi que busca pelo seu irmão mais velho, Ikena, em São Paulo, do qual há muito tempo não se tinha notícias.

No Forum Expanded está “Apiyemiyekî?”, da artista visual e diretora Ana Vaz, que aborda sobre a migração forçada do povo indígena Waimiri-Atroari durante a construção da Rodovia BR 174, na década de 70, que liga Manaus à Boa Vista, capital de Roraima, em pleno regime militar. Na mesma mostra estão ainda "Jogos Dirigidos", de Jonathas de Andrade; "Vaga Carne", de Grace Passô e Ricardo Alves Jr.; "(Outros) Fundamentos", dirigido por Aline Motta e "Letter From a Guarani Woman in Search of the Land Without Evil", da cineasta indígena Patricia Ferreira Pará Yxapy

Inspirado no belíssimo livro "O Lago do Esquecimento", da fotógrafa  Paula Sampaio, o documentário "O Reflexo do Lago", do diretor paraense Fernando Segtwick, que estreia na Mostra Panorama Dokumente, retrata o impacto da construção da usina de Tucuruí, situada no rio Tocantins, no Pará. Já "Meu Nome é Bagdá", segundo filme da cineasta Caru Alves de Souza ("De Menor", de 2013), selecionado na mostra Generation, explora o universo das mulheres skatistas.

No Forum, a cineasta Paula Gaitán estreia "Luz nos Trópicos", sua sexta obra cinematográfica, é um filme sobre a marcha da humanidade através do tempo e do espaço. Uma jornada transformadora da natureza, do ser humano e luz, onde há uma interseção entre esses multiplos universos, bem como um ensaio sobre os territórios complexos e as pessoas das Américas. Os títulos brasileiros "Vil, Má", do diretor Gustavo Vinagre; e "Chico Ventania También Quisera Tener un Submarino", de Alex Piperno, também foram selecionados.

Nesta edição da Belinale, o Brasil tem uma presença expressiva de obras cinematográficas mesmo diante do atual cenário catastrófico; a arte e a cultura ainda segue resistindo. Deleuze (1925-1995), um dos maiores filósofos do século XX, no livro "Conversações, já afirmava: "a arte é o que resiste: ela resiste à morte, à servidão, à infâmia, à vergonha". A arte é um ato de resistência. Resistimos.

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.

Posted Under
Sem categoria