Bispo do Rosario: negro, pobre, louco e artista

O hábito do indivíduo de organizar e classificar são antigos e sempre teve por objetivo facilitar uma compreensão do mundo. Na ciência, a classificação tem a finalidade de organizar as informações sobre os muitos seres vivos estudados, classificando os organismos de acordo com diversos critérios ajuda a, entre outras coisas, compreender relações evolutivas.

As classificações dos seres vivos, como qualquer outro tipo de sistema de organização, apresentam requisitos dos quais os seres precisam obedecer para pertencer a algum grupo. Se for encontrado um ser vivo que não se adequa a nenhum critério pré-estabelecido, é preciso criar um novo grupo com novas condições, e assim a ciência vai sendo feita.

Esse sistema clássico de conhecimento foi criado por Lineu.Na época em que foi criado esse sistema clássico de conhecimento, por Lineu, todos ainda acreditavam no fixismo das espécies – todos os seres foram criados do jeito que são. Por isso, a organização dos seres se dava unicamente pelas suas características físicas, e não por seu parentesco evolutivo. O fixismo apenas deixou de ser aceito após Darwin escrever o livro "A origem das espécies" (1859), divulgando a Teoria da Evolução.

O movimento artístico-cultural denominado Naturalismo esboçou o que se pode declarar como os primeiros passos do pensamento teórico evolucionista de Charles Darwin. Seria uma radicalização do Realismo, baseando-se na observação fiel da realidade e na experiência, mostrando que o indivíduo é determinado pelo ambiente e pela hereditariedade. Essa forma de conceber o universo constitui um dos pilares da ciência moderna, sendo alvo de considerações também de ordem filosófica.

A principal característica do Naturalismo é o cientificismo exagerado que transformou o homem e a sociedade em objetos de experiências. O narrador se colocava como observador, numa postura expositiva, onde defendia um determinado conceito de homem baseado no positivismo e na sociologia, excluindo completamente da argumentação a subjetividade e a filosofia.

A tendência de agrupar as espécies cria um ponto excludente sobre aquelas que não se encaixam em nenhum grupo estabelecido. Ao separar os que pertencem dos que não pertencem criam-se normas e padrões de comportamentos usuais que margeiam as análises. A definição de normalidade, então, se dá pelo comportamento que se encaixa no padrão. O diferente se torna exótico e, logo, marginalizado.

Essa forma de classificação tem consequências no pensamento moderno e contemporâneo, com reflexos inclusive nos diagnósticos patológicos. Ao longo do tempo cria-se o estigma de que a loucura é a condição do doente, e logo, do exilado. A loucura e a normalidade são categorias apresentadas sempre como oposições de um ideal da razão.

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Arthur Bispo do Rosario era esquizofrênico paranóide, e viveu internado 50 anos em um hospital psiquiátrico (Colônia Juliano Moreira – Rio de Janeiro). Em seu surto, recebeu a missão de recriar o universo para apresentar a Deus no dia do Juízo Final.

Natural de Japaratuba, no interior do estado de Sergipe – onde nascera em 1909, e para onde jamais retornou, Arthur Bispo do Rosário foi negro, pobre, nordestino, doméstico, marinheiro e pugilista. Só essas características já se qualificam excludentes e marginalizantes em um meio social capitalista como o nosso.

Na noite 22 de dezembro de 1938, despertou com alucinações que o conduziram ao patrão, o advogado Humberto Magalhães Leoni, a quem disse que iria se apresentar à Igreja da Candelária. Depois de peregrinar pela Rua Primeiro de Março e por várias igrejas do então Distrito Federal, terminou subindo ao Mosteiro de São Bento, anunciando a um grupo de monges que era um enviado de Deus, encarregado de julgar os vivos e os mortos. Dois dias depois foi detido e fichado pela polícia como negro, sem documentos e indigente, e conduzido ao Hospício Pedro II (o hospício da Praia Vermelha), primeira instituição oficial desse tipo no país, inaugurada em 1852, onde anos antes havia sido internado o escritor Lima Barreto (1881-1922).

Na época, o tratamento destinado aos pacientes psiquiátricos incluía choques elétricos, medicação sedativa muito forte e até mesmo lobotomia, muito antes da reforma psiquiátrica. Rosário permaneceu trancado por um longo período e produziu o que mais tarde viria a ser chamado de "Primeira experiência legitimamente brasileira da Pop Art".

Bispo, durante seus anos de internação recolheu restos de objetos da sociedade de consumo como forma de registrar o cotidiano dos indivíduos; preparou esses objetos com preocupações estéticas, onde percebemos características dos conceitos das vanguardas artísticas e das produções elaboradas a partir de 1960.

Os trabalhos de Bispo diversificam-se entre justaposições de objetos e bordados. Nos primeiros, utiliza geralmente utensílios do cotidiano, como canecas de alumínio, botões, colheres, madeira de caixas de fruta, garrafas de plástico, calçados alem de materiais comprados por ele ou pessoas amigas. Para os bordados costumava usar os tecidos disponíveis, como lençóis ou roupas, e conseguia os fios desfiando o uniforme azul de interno. Prepara, com seus trabalhos, uma espécie de inventário do mundo para o dia do Juízo Final.

Frederico Morais organizou suas obras e as dividiu em segmentos: 1- o texto: nos estandartes bordados; 2- as roupas: o Manto da Apresentação e os fardões; 3- os objetosready-made mumificados (enrolados por linhas muitas vezes conseguidas ao desfiar seu uniforme hospitalar) e construídos (barcos, miniaturas); 4- as assemblagens (ou vitrines, como dizia Bispo).

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As relações entre as obras de Bispo e as produções artísticas contemporâneas podem ser observadas nos trabalhos de artistas de vanguarda, e, principalmente, nas produções da década de 60 em diante. As repetições incansáveis, executadas durante anos, com produtos retirados do universo comercial e de cunho industrial representam as principais características minimalistas. Os aspectos da indústria cultural são assimilados na produção artística de Bispo do Rosário, assim como na Pop Art cujas imagens trabalhadas já se encontravam amplamente difundidas na sociedade de consumo. Produtos, embalagens, vasilhames, tudo que nossa imaginação possa captar e que pode ser encontrado jogado por aí, pelas ruas e esquinas, faz parte da obra de Bispo.

A esquizofrenia é incorporada no processo artístico, uma vez que Arthur Bispo do Rosário utiliza-se da palavra como ferramenta de trabalho para expressar imagens e códigos a que os "loucos" têm acesso, no inconsciente. Esse mecanismo o torna também altamente revolucionário num contexto em que precisa o tempo todo driblar os tratamentos médicos, e consegue fazê-lo. Dentro da loucura encontrava subsídios para desenvolver sua obra. Seu processo de criação tem na doença toda sua potência que faz com que a obra seja intensa, capaz de ser apresentada a qualquer público.

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Bispo é um contador de histórias. São histórias que teve espaço no MAM/RJ, onde foi realizada sua primeira exposição individual. O crítico de arte Frederico Morais que escreveu sobre seu trabalho, ligando-o à arte de vanguarda, à arte pop, ao novo realismo, e especialmente à obra dadaísta de Marcel Duchamp. Em 1995, com uma vasta seleção de peças, Bispo representa o Brasil na Bienal de Veneza e obtém reconhecimento internacional. Sua obra torna-se uma das referências para as gerações de artistas brasileiros dos anos 1980 e 1990.

Mesmo com a sua marginalização encarnada e a exclusão imposta, Bispo subverte os hospitais, os museus e a sociedade, e torna-se artista consagrado como referência da Arte Contemporânea Brasileira. Como dizia Helio Oiticica: "Seja marginal, seja herói".

Aline Barros

Aline Barros

Alérgica a leite, viciou-se em café só para poder usar xícaras. Designer gráfico, mãe, blogueira e amante das artes em geral, troca facilmente um par de sapatos novos por um livro velho.