Camile Claudel 1915

Inspirado livremente em correspondências trocadas entre a escultora Camille Claudel (1864 – 1943) e seu irmão, o diplomata e poeta Paul Claudel (1868-1955), e nos prontuários médicos, o longa-metragem "Camille Claudel 1915", do cineasta francês Bruno Dumont, faz um retrato intimista do ano de 1915 na vida da artista.

Intrepretada pela consagrada atriz Juliette Binoche, Camille Claudel, artista de extrema sensibilidade e grande talento, mulher a frente do seu tempo e artisticamente sufocada tanto por uma época quanto pelo seu mentor e amante Auguste Rodin (1840–1917), passa os dias confinada no Hospital psiquiátrico de Montdevergues, internada por ordem da família. Dumont, aos poucos, vai inserindo o espectador ao ambiente psiquiátrico e cotidiano da protagonista, que aguarda com impaciência a visita do irmão.

O encontro entre os irmão Claudel, que é doloroso. Enquanto Camille, exultante pela visita rara de Paul e a possibilidade de poder sair daquela prisão, do outro, depara-se com uma muralha por parte de Paul Claudel. Há em seu comportamento uma frieza e irritação, e a indiferença ao desespero da irmã é nítido; sua convicção religiosa pesa no julgamento que impõe a ela.

Ao longo do filme, vemos alusões ao seu ofício de forma simbólica e sutil, ora como figuras (personagens) evidenciadas pela escolha precisa dos enquadramentos, ora pelas imponentes montanhas rochosas, ou quando Claudel pega um punhado de barro no chão, em um de seus passeios,e, automaticamente, sua mão tenta modelá-lo. Como que se aqueles segundos a tirasse daquela prisão, mas, ao mesmo tempo, afloram lembranças num misto de dor, raiva, angustia e ressentimento, descartando-o em seguida.

O encontro entre os irmão Claudel é doloroso. Enquanto Camille, exultante pela visita rara de Paul e a possibilidade de poder sair daquela prisão, do outro, depara-se com uma muralha por parte de Paul Claudel. Há em seu comportamento uma frieza e irritação, e a indiferença ao desespero da irmã é nítido; sua convicção religiosa pesa no julgamento que impõe a ela.

O diretor explorar a fronteira entre a genialidade e a loucura, tendo "a arte como 'conduta" ou 'fronteira' entre ambas". Com a presença de Paul em cena se tem a sensação dessas semelhanças entre os irmãos, há uma certa loucura nele. Mas, no entanto, na sociedade da época e sendo homem podia  dar vazão através da sua arte, a literatura, enquanto Camille, como mulher, não.

A ausência de trilha sonora e o uso do som ambiente somado à estética minimalista, ao registro seco e duro marcado por silêncios, ora quebrado pelos poucos diálogos, e a presença das próprias pacientes na mise-en-scène que, ora e outra contracenam com a protagonista, provocam estranhamentos e uma sensação dolorosa e claustrofóbica.

A fotografia em tons frios e opacos, e os movimentos de câmera e os enquadramentos, que imprimem o quão opressor, solitário, desolador e angustiante foi o enclausuramento, potencializam essa atmosfera como expressam o emocional da protagonista, dando a dimensão insuportável do seu cotidiano. Difícil sair ileso do filme.

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e cofundadora do EntreLinha e Coletivo Pausa. É cinéfila, amante das artes e da literatura.