“Carol”: quando olhares dizem tudo

 

Por Armando Neto, jornalista, escritor e apaixonado por cinema

Já imaginou uma mulher, casada com um marido influente, mãe de uma linda e jovem menina tomar a decisão pelo divórcio motivada por sua opção homoafetiva? Hoje, em pleno 2016, a situação não deveria mais causar espanto, afinal, a liberdade de amar, os valores e os direitos individuais, cada vez mais legalizados, seguem quebrando as regras impostas pela sociedade.

Mesmo assim, a duras penas, pois há sempre retrógrados de plantão tentando mecanismos para frear as evoluções do homem e fazer da hipocrisia quase uma lei da sobrevivência. Agora, e quando esse fato, adaptado do livro semibiográfico “The price of Salt”, de Patricia Higsmith, se passa em 1952, na conservadora América. Esse é o cerne do filme “Carol”, estrelado magistralmente por Cate Blanchet, como Carol Aird, e Rooney Mara que interpreta Therese Belivet, uma jovem aspirante a fotógrafa.

É bem verdade que os romances homoafetivos veem gradativamente tomando as telas, fruto, inclusive, do avanço no respeito e individuação do ser humano. Por isso, “Carol” poderia ser apenas mais uma história deste tema, acontecida no passado e revelada décadas depois. Poderia sim, mas, está longe disso. Graças, principalmente, a atuação primorosa das atrizes centrais da trama e da direção sutil e afiada de Todd Haynes, que orquestrou toda a atmosfera para potencializar a química incontestável entre as duas, traduzida pela beleza da troca de olhares das protagonistas. Sim, protagonistas. Apesar de o papel principal ser de Cate Banchet, indicada ao Oscar como melhor atriz, e de Rooney Mara estar na lista de melhor atriz coadjuvante, vejo sentido apenas como forma de se organizar a entrega dos prêmios. Pois, ambas estão divinas.

Carol Aird desfila elegância, maturidade e uma postura firme, apesar de todas as sequelas do casamento desfeito e, especialmente, a pressão pela guarda da filha. Em contraposição, Therese é a figura do descobrimento, duelando com as dúvidas sentimentais e profissionais. No primeiro encontro a sós das duas, durante um almoço, esses contrastes ficam claros, não só pelo excelente posicionamento de câmera que realça o fato, mas, pela insegurança da jovem em fazer os pedidos, seguindo igualmente os de Carol, se agarrando nos movimentos do outro para encontrar a sua própria referência.

Carol apenas desaba de sua figura imponente ao clamar que o marido Harge (Kyle Chandler), parasse com as artimanhas jurídicas com o intuito de impedi-la de ver a filha. Motivo este, por sinal, desencadeador da reviravolta na trama e, certamente, o mais desafiador aos valores do coração.

De Cate Blanchet, vencedora de dois Oscars e diversos outros prêmios importantes, é sempre aguardada uma atuação marcante e, novamente, ela não decepciona, assim como em “Blue Jasmine”, “Elisabeth”, entre outras tantas produções. Porém, da jovem Rooney Mara, confesso, não me recordava de outra atuação.

Ao retornar para casa corri ao google para amenizar minha ignorância. Constatei que ela já possui uma carreira em franca ascensão, tendo origem em algumas séries americanas, onde conheceu o diretor David Fischer. Foi Fischer, inclusive, que a escalou para o papel de Lisbeth Salander na versão americana de “Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” (2011), e que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Além disso, a atriz participou, recentemente, de “Peter Pan” (2015) e de “Trash, a esperança vem do lixo” (2014). Revendo fotos do filme de Millennium, me lembrei do impacto que Lisbeth Salander causava em cena. Apesar da grande diferença para a Therese de “Carol”, a força do olhar mantém-se a mesma. Curiosamente, não assisti a nenhuma das obras mencionadas mais recentes, mas, agora, tenho um ótimo motivo para conferi-las.

Outra cena marcante da trama ocorre na passagem do réveillon, Carol e Therese estão em um quarto de hotel qualquer, em uma viagem feita para ocultar a tristeza da mãe por passar as festas longe da filha. Carol pergunta a Therese se ela não estava triste em celbrar o ano novo sem uma grande festa. Ela responde que passara sozinha todos os réveillons em meio a multidões e que, finalmente, se sentia acompanhada. Essa frase explica, literalmente, o encontro das duas. Dá palavras ao que os olhares revelaram durante todo o filme. Trata-se de uma linda história de amor. Quem sabe um dia poderemos tirar o termo homoafetivo, reduzindo-o, somente, uma mulher que não se acomodou na tristeza de um casamento infeliz e se permitiu continuar a vida em busca de encontrar um amor.

 

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