Cartas para Paul Morrissey

Exibido na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, evento que ocorreu entre os dias 18 a 30 de outubro 2019, "Letters to Paul Morrissey" (Cartas para Paul Morrissey), do diretor e editor espanhol Armand Rovira, é um filme-ensaio inspirado no cinema transgessor e underground do cineasta norte-americano Paul Morissey (1938) – colaborador e amigo pessoal do artista e cineasta Andy Warhol (1928-1987), realizador de vários clássicos do Cinema Queer.

Filmado em 16mm, P&B, "Letters to Paul Morrissey" apresenta, de forma episódica, cinco histórias em que as personagens fazem alusão aos das ficções como a personalidade complexa, contraditória e multifacetada do cineasta homenageado no filme.

Narrado em primeira pessoa, acompanhamos, inicialmente, Udo Strauss (Xavi Sáez), um homem que rompe com tudo e busca sua salvação na fé, escolhendo um caminho solitário e obsessivo. A carta seguinte, a mais curta, é de Joe Dellesandro, um sex symbol do cinema underground que atuou na maioria dos filmes da "Fábrica de Warhol" e Morrissey. Interpretando a si mesmo, tenta, a sua maneira, encontrar um lugar no mundo.

Numa outra, a atriz María Fajula dá vida a Olena Wood, uma conhecida atriz na década de 70, que faz alusão as atrizes da "Factory de Warhol", chega aos seus 52 anos sem conseguir conquistar o tão almejado sucesso e tendo dificuldade em lidar com o envelhecimento. Há nesta carta referência explícita ao filme "Chelsea Girls" (1966), de Morrissey.

O protagonismo feminino também se faz presente nas duas últimas cartas: uma é de Saida Benzel, interpretando si mesma, sobressai pelo interessante trabalho de som; e, a outra, apresenta a de HirokoTanaka (Almar G. Sato), jovem japonesa que sofre uma dor aguda na cabeça causada por uma frequência sonora específica que só ela consegue ouvir.

Aparentemente independentes, as multiplas histórias que compõem o longa-metragem tem Morrissey como fio condutor, explicito no próprio título. Os protagonistas de cada uma delas compartilham, por meio de cartas, intimidades e questões existênciais. O diretor faz uso da metalinguagem e de elementos do surrealismo, e traz, inclusive, em uma das cenas do filme (imagem de capa deste texto) referência do maravilhoso álbum de jazz "Undercurrent", do pianista Bill Evans e do compositor, arranjador e guitarrista de jazz Jim Hall, além de buscar se conectar a essência do cinema do seu homenageado.

Mesmo não conhecendo a excentricidade de Morrissey e muito menos sua filmografia, é possível apreciar o filme do diretor Armand Rovira; porém, conhecendo-a, o espectador é levado a uma outra experiência com a obra.

 

 

 

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.

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