“Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”: na fronteira entre a realidade e a ficção

Na fronteira entre a realidade e a ficção, o premiado longa-metragem "Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos", dirigido pelos diretores, a brasileira Renée Nader Messora e o português João Salaviza, retrata de forma sensível os conflitos pessoais do jovem indígena Ihjãc, que após a morte do pai, o Pajé da aldeia Krahô, passa a ter pesadelos.

Ainda em luto, Ihjãc recebe um chamado ao qual precisa realizar a cerimônia de passagem para que o espírito do falecido possa partir para a aldeia dos mortos, e sofre não apenas com a perda, também pelo sinal recebido pela a Arara, a qual lhe recai a responsabilidade de se tornar o Xamã. Com medo, Ihjãc nega e foge, temporareamente, com destino a cidade deixando a mulher (Kato Krahô) e o filho (Tecto) pequeno na tentativa de escacapar desse processo que já está em curso. Longe de seu povo e de sua cultura, ainda enfrenta a realidade de ser indígena no Brasil contemporâneo.

Através de um olhar estrageiro, além de retratar os conflitos existenciais vividos pelo protagonista e a imensa riqueza cultural dos Krahô, ao qual mantém vivo seus hábitos, costumes, crenças e sua própria língua, as questões indígenas atravessam "Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos" de forma crítica e contundente, provocando-nos reflexões profundas a respeito. Uma das sequências, ao mer ver, mais impactante do filme é quando Ihjãc busca ajuda médica para seu suposto mal-estar (que na verdade está relacionado ao processo de iniciação xamanica), a qual de cara se depara com dificuldades e discriminação ao tentar ser atendido.

As personagens interpretam a si mesmas e falam sua própria língua. Com referência ao belo "Uirá" (1973), do diretor brasileiro Gustavo Dahl, ficção baseada no ensaio do antropólogo Darcy Ribeiro, o filme "Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos" busca aproximar o espectador pela sensibilidade; a comunicação se dá pelas imagens e pelo som.

A fotografia, deslumbrante, por sinal, assinada pela própria diretora Renée Nader Messora, tem um papel importante na história, evidencia a relação e comunhão natureza-ser humano. Embora seja mais perceptíveis em algumas cenas,  constrói uma sensação forte de incomodo e de não-pertencimento.

"Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos" é um filme híbrido, carregado de significados e lirismo. Um retrato sensível e pungente;  uma obra cinematográfica singular.

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.

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