Desventuras em Série: nova produção agrada fãs dos livros e público em geral

por Eduardo Permon, designer, artista e estudante de Artes Visuais da Unicamp

Estreou na última sexta-feira 13, não por acaso, "Desventuras em Série", a nova adaptação literária da Netflix para as telas. Curiosos, entusiastas e voluntários – uma palavra que aqui significa "adeptos das extravagâncias do autor e acompanhantes ávidos do infortúnio dos três irmãos Baudelaire", ficaram empolgados com o novo formato trazido pela produtora americana, que estrela Neil Patrick Harris no papel do vilão Conde Olaf.

"Desventuras em Série" é a materialização das pesquisas de Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler, escritor americano) sobre os três irmãos Baudelaire: Violet, Klaus e Sunny – uma brilhante inventora, um leitor obstinado e uma poderosa mordedora de coisas – que ficaram órfãos depois de um terrível incêndio, e a sucessão de eventos desafortunados vividos por eles. A abertura da série, que muda a cada dois episódios, irônica e melancolicamente dá o aviso: "É melhor não olhar! Pergunte para alguém sensato: devo assistir? E ouvirás: É bem melhor não olhar!" Não diga que você não foi devidamente avisado.

Louis Hynes, Malina Weissman e Presley Smith como os irmãos Baudelaire

As comparações com a produção cinematográfica de 2004, dirigida por Brad Silberling, que trazia Jim Carrey no papel do antagonista, são inevitáveis. Ao contrário do filme, os dois episódios de 40 minutos por livro, tornam possível explorar melhor a profundidade das personagens e as peculiaridades narrativas de Lemony – o autor dos treze livros que, aqui, ganha rosto e corpo, interpretado por Patrick Warburton.

A primeira temporada de 8 episódios, que relata as desventuras das crianças Baudelaire nos quatro primeiros livros da série, também não é mais do mesmo. Quem assistir encontrará explicações para velhos dilemas, além de cenas inéditas de alguns dos coadjuvantes que parecem não ter um desfecho tão claro nas obras escritas (e que sequer foram trazidos à adaptação para o cinema), mostrando que desempenham um papel cada vez menos secundário no decorrer dos relatos das Desventuras.

Alguns personagens são inéditos na adaptação. Outros, como Gustav Sebald, são velhos conhecidos de quem leu os livros, mas vêm com novas histórias

É provável que os fãs se encantem novamente com os novos personagens e as narrativas paralelas. Enquanto os livros se concentram em acompanhar incessantemente os três irmãos, a série permite antecipar fatos posteriores, criando novas curvas que exploram tanto o protagonismo dos Baudelaire, quanto as tramas dos voluntários de uma organização secreta e as peripécias de Lemony Snicket, agora personificado, que age como voz para trazer ao grande público os seus miseráveis relatos.

A riqueza da série é ainda maior quando os leitores percebem a atenção nos detalhes da produção, que esconde alguns dos segredos nefastos dos livros nas entrelinhas, nos diálogos, nos backgrounds de algumas cenas e em imagens quase subliminares, traduzindo de forma eficaz a perspicácia do autor em codificar mensagens secretas e carregar uma obra infanto-juvenil de austeridade e mistério.

Neil Patrick Harris como o inescrupuloso Conde Olaf

Dirigida por Barry Sonnenfeld, a fotografia é marcante e a paleta de cores utilizadas se apressa em contrastar a infância arruinada de três crianças e a insalubridade do mundo adulto que são obrigadas a enfrentar precocemente, seja sob os cuidados de um banqueiro burocrata, velejando sozinhas em meio a um furacão devastador ou trabalhando em uma serraria com um bebê a tiracolo.

A atuação de Neil Patrick Harris como o vilão é um espetáculo à parte. Ainda que se distancie em alguns momentos da personagem idealizada na literatura, ele dá seu próprio toque de arrogância e soberania ao terrível Conde, enquanto coordena uma trupe de atores pouco ou nada talentosos que o obedecem sem questionar, incluindo um homem de mãos de gancho e duas mulheres com a cara empoada.

Outro detalhe crucial mantido pela adaptação da Netflix são as falas da bebê Sunny, que, devido à pouca idade, se comunica através de grunhidos ininteligíveis compreendidos apenas pelos irmãos e poucos outros personagens. As expressões vão ganhando corpo e evoluindo com a história, trazendo referências que indicam a genialidade do bebê e do autor. Os leitores mais ávidos e espectadores astutos também perceberão que algumas das referências literárias foram mantidas – incluindo uma discreta menção à escritora britânica Virgínia Woolf no quarto episódio, e a George Orwell nos episódios de 'Serraria Baixo-Astral'.

A gama de personagens alegóricos que os órfãos encontram pelo caminho e o olhar astuto do narrador ao provocar reflexões servem ao propósito de desmistificar o maniqueísmo das ficções e dos blockbusters e provar que o mundo é uma colcha de retalhos de nuances entre o bem e o mal – e nos lembrar que a vida é apenas um fragmento dentro de uma série de eventos, vez ou outra desafortunados.

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