É Tudo Verdade/It’s All True: Mostra destaca produções documentais dirigidas por mulheres

Em sua 25ª edição, o É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, principal evento dedicado exclusivamente à cultura do documentário na América do Sul, traz em sua programação, com mais de 50 horas, um ciclo que celebra produções cinematográficas dirigidas por mulheres que marcaram a história do festival.  

O ciclo “As Diretoras no É Tudo Verdade” apresenta o premiado "Aboio" (2005), da mineira Marília Rocha, filme que parte de uma pesquisa da realizadora que leva a percorrer o norte de Minas, e, posteriormente, pela Bahia e fechando o ciclo em Pernambuco, retratando um costume dos sertões quase extinto: o aboio.  Já o filme da diretora e atriz Carla Gallo, “O Aborto dos Outros” (2018), como bem diz o título, trata de assunto um tanto quanto polêmico, o aborto.  

Cena do documentário “Carmem Miranda – Bananas Is My Business” (1994)

Outro premiado filme é “Carmem Miranda – Bananas Is My Business” (1994), uma das principais obras da filmografia da cineasta e roteirista Helena Solberg. O longa é uma cinebiografia da cantora que com seu carisma, talento e bababba conquistou não só a Broadway, mas também Hollywood, durante a Era de Ouro. Em "Domingos" (2009), da atriz, escritora e diretora Maria Ribeiro,  revela a intimidade do consagrado cineasta Domingos de Oliveira, um dos grandes contribuidores do cinema brasileiro.

O documentário "Dona Helena" (2006), da diretora Dainara Toffoli, retrata a rica e turbulenta trajetória da personagem, considerada uma 100 melhores guitarristas do mundo. A cineasta Andrea Pasquini, em "Os Melhores Anos de Nossas Vidas" (2003), remonta a vida de um grupo de pessoas que foram obrigadas a se isolar do resto da sociedade em um sanatório por serem portadoras de hanseníase.

Cena do documentário "Mexeu com uma, mexeu com todas" (2017)

Na programação também está "Mexeu Com Uma, Mexeu Com Todas" (2017), da diretora Sandra Werneck, um filme pungente e feminista, que retrata sobre a violência doméstica, o assédio, estupro e feminicídio no Brasil. No documentário "Nasceu o Bebê Diabo em São Paulo" (2002), Renata Druck explora lendas urbanas  que o "Notícias Populares" explorou à exaustão, em épocas distintas.

Em "Um Passaporte Húngaro" (2001), de Sandra Kogout, temos uma forte presença da diretora, que vai articulando suas experiências pessoais, de forma singular, "com a história e a memória coletiva"; enquanto o inédito documentário da diretora Véronique Ballot, “La Deuxième Rencontre" (O Segundo Encontro, 2019), revisita o primeiro contato entre o branco e os indígenas Metuktire, da nação Kayapó, em 1953, no Mato Grosso.

Cena da série "Women Make Film", de Mark Cousin

Dentro desse universo, há uma série que destaco: "Women Make Film: Um Road Movie Através do Cinema", dirigido pelo Mark Cousin, em que viaja pelo continente submerso da produção cinematográfica feminina. Mais de 700 filmes, rodados nos cinco continentes por 183 diretoras, frisam a contribuição original das mulheres para o desenvolvimento da linguagem e da história do cinema.

Esses títulos, que serão disponibilizados aos poucos, podem ser conferidos até o dia 23 de junho no site Spcine Play; já a série "Women Maker Film", disponível apenas entre os dias 03 a 10 de abril, também no Spcine Play, porém, sendo limitado a 1000 visionamentos por epsódios.

Veja a seguir as sinopses dos filmes do ciclo inédito "As Diretoras no É Tudo Verdade", e boas sessões.

Cena do documentário "Aboio", dirigido pela cineasta Marília Rocha

"Aboio" (2005)

Direção: Marília Rocha

Sinopse: No interior do Brasil, adentrando as extensões semiáridas da caatinga, há homens que ainda hoje conservam hábitos antigos, como o costume de tanger o gado por meio de um canto. Suas vozes ecoam lamentos improvisados e sem palavras, que se prolongam pelos campos do sertão. Melhor documentário da competição de longas-metragens brasileiros, É Tudo Verdade 2005.

 

"O Aborto dos Outros" (2008)

Direção: Carla Gallo

Sinopse: Um filme sobre maternidade, afetividade, intolerância e solidão. A narrativa percorre situações de abortos realizados em hospitais públicos, previstos em lei ou autorizados judicialmente, e situações de abortos clandestinos. O filme mostra os efeitos perversos da criminalização para as mulheres e aponta a necessidade de revisão da lei brasileira.


 
"Carmen Miranda – Bananas Is My Business" (1994)

Direção: Helena Solberg

Sinopse: Descoberta aos vinte anos, a atriz e cantora Carmen Miranda (1909-1955) seduziu o coração dos brasileiros e conquistou os EUA, em Hollywood e nos palcos. Solberg utiliza trechos de filmes, reencenações e entrevistas com amigos e parentes para retratar uma mulher que pagou caro por sua fama e carreira.


 
"Domingos" (2009)

Direção: Maria Ribeiro

Sinopse: O dia-a-dia de um artista cuja obra se baseia exatamente na vida “simples”, os amores, a velhice, o amor pelo trabalho: esse é o mote de “Domingos”, um documentário sobre o consagrado autor de “Todas as Mulheres do Mundo”.


 
Dona Helena (2006)

Direção: Dainara Toffoli

Sinopse: Helena Meirelles faleceu em 2005, doze anos depois de ter sido "descoberta" pela revista norte-americana Guitar Player, que a colocou entre os 100 melhores guitarristas do mundo, ao lado de músicos como Roger Waters e Eric Clapton. Ela  nasceu no sertão do Brasil e desde criança era apaixonada pela viola. Passou a sua juventude entre comitivas de boiadeiros e prostíbulos, lutando pelo direito de tocar.


 
"Os Melhores Anos de Nossas Vidas" (2003)

Direção: Andrea Pasquini

Sinopse: Histórias de preconceito, abandono e superação são contadas pelos moradores do Santo Angelo, uma cidade erguida para o tratamento de hansenianos. O testemunho humano dos moradores remanescentes revela as marcas que ficaram do tempo em que a internação era compulsória. Condenados ao isolamento de uma vida inteira, encontraram no amor e na revolução, na música e no cinema as principais armas para enfrentar seus dramas pessoais.

 

"Mexeu Com Uma, Mexeu Com Todas" (2017)

Direção: Sandra Werneck

Sinopse: O título remete a um dos gritos de protesto de mulheres que foram às ruas no Brasil e se organizaram em redes sociais para fazer frente ao machismo e ao conservadorismo. Através de depoimentos de mulheres públicas ou anônimas que passaram por situações de violência, revela-se como, apesar de conquistas legais, a mulher permanece em situação de vulnerabilidade.


 
"Nasceu o Bebê Diabo em São Paulo" (2002)

Direção: Renata Druck

Sinopse: Uma investigação sobre três lendas urbanas paulistas: O Bebê Diabo, a Loira do Banheiro e a Gangue do Palhaço. Originadas em boatos, foram noticiadas pelo extinto jornal Notícias Populares (NP) em épocas distintas. A partir desta busca, é revelado um universo onde fantasia e realidade se confundem.


 
"O Segundo Encontro" (2019) – INÉDITO

Direção: Veronique Ballot

Sinopse: Um dos renovadores da fotodocumental brasileira em seu trabalho para “O Cruzeiro”, Henri Ballot (1921-1997) registrou o encontro inaugural entre os irmãos Villas-Boas e a tribo Kayapó em 1953 no Xingú. Mais de seis décadas depois, sua filha retorna à tribo, reencontrando índios retratados por Ballot.


 
"Um Passaporte Húngaro" (2001)

Direção: Sandra Kogut

Sinopse: Através do pedido de um passaporte, Sandra Kogut parte em busca da história da família, dividida entre dois mundos e dois exílios: aqueles que se foram e aqueles que permaneceram, os imigrantes que chegaram ao Brasil na década de 40 em decorrência da 2ª Guerra e os que não puderam sair da Hungria.

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.