Elza Soares: A mulher do Fim do Mundo

“Na chuva de confetes deixo a minha dor
Na avenida deixei lá
A pele preta e a minha voz
Na avenida deixei lá
A minha fala, minha opinião
A minha casa, minha solidão
Joguei do alto do terceiro andar
Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida
Na avenida, dura até o fim
Mulher do fim do mundo
Eu sou – e vou – até o fim cantar”

A carioca Elza Soares, considerada a melhor cantora do milênio, após 8 anos do seu penúltimo trabalho, vem, literalmente, com tudo ao lançar, em outubro de 2015, o álbum “A Mulher do Fim do Mundo”. Fiquei impressionada, pois há uma força, potência e a visceralidade nesse novo projeto. Sim, o novo álbum é maravilhoso.  

Elza Soares é a voz que rompe o ecoa do silêncio ao tematizar, de forma tão particular, através de um discurso forte e à queima roupa, sobre as urgências cotidianas, os problemas sociais, como, a violência doméstica, discriminação por gênero e racial, além do empoderamento feminino.

“Alguns problemas permanecem, como a homofobia, a mulher que sofre abuso em casa e não denuncia. Essas coisas acontecem a todo instante, não têm época. (…) Temos que continuar sabendo dos fatos, que são terríveis. Dói muito, mas não se pode negar a realidade cruel. Ela se faz presente”, alerta.

Ao ritmo do samba, rock, rap e punk rock,  a cantora também incorpora a esse álbum a música eletrônica, além de aventurar-se com algo mais experimental, proporcionando uma experiência sonora incrível que potencializa ainda mais as músicas inéditas.

O álbum abre de forma magistral. Com sua voz poderosa e entonações precisa, canta o poema “Coração do Mar”, do poeta modernista Oswald de Andrade, musicado por José Miguel Wisnick, músico, compositor e ensaísta brasileiro. Elza Soares já diz de cara para o que veio.

A faixa “A Mulher do Fim do Mundo”, que titula o álbum, é uma música forte e ácida, cheio de som e fúria. Em “Maria da Vila Matilde”, é um grito contra a omissão das agressões, seja ela física e/ou psicológicas, sofridas pelas mulheres.  “Caladas, permitimos coisas horríveis. A mulher tem que gritar, denunciar para que isso não se repita várias vezes e com as outras”, afirma a cantora.

O álbum também é composto por “Benedita”, “Luz Vermelha”, “Pra Fuder”, “Firmeza”, “Dança”, “O Canal”, “Salto”, “Comigo”, que conta com a direção artística de Romulo Fróes e Celso Sim, e tem a produção de Guilherme Kastrup, que também assinam as composições, juntamente com Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Marcelo Cabral – que integram o núcleo criativo do projeto -, e Douglas Germano, Clima, Cacá Machado, José Miguel Wisnik, entre outros compositores paulistas.

Confira:

Maria da Vila Matilde

 

"Coração do Mar" e "A Mulher do Fim do Mundo"

Não deixe de ouvir o álbum completo, é simplesmente fantástico. Acesse aqui

 

 

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Publicitária, blogueira, produtora e cineasta. É cofundadora do EntreLinha Blog, do Coletivo PAUSA e da websérie "Uma Pausa para o Café...", além de colunista do Design & Chimarrão.

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