Esquadrão Suicida: como anular um protagonista inexistente?

Finalmente assisti “Esquadrão Suicida”. Demorei um pouco, não por conta das inúmeras críticas que o filme recebeu, mas pela falta de tempo, acabei priorizando outros.

Apesar de achar que o filme foi saturado e espremido até o último caldo, encontrei tantas divergências da crítica que achei válido retomar o assunto.

Extremamente psicológico, como um filme sobre degenerados pede, "Suicide Squad" traz personagens complexos e excêntricos. Por si só, o tema é rico o suficiente que, se tivesse sido formatado para um estilo “woodyalleano” de HQ já ficaria fantástico.

Mas não foi. Tem treta. Tem muita treta. Os combates são bem construídos e exaltam a habilidade de cada vilão na medida certa, além de mostrar também como podem ser melhores quando lutam em conjunto. As cenas possuem uma fotografia extraordinária, principalmente no confronto final.

As primeiras cenas já demonstram o estilo de montagem, quando o Pistoleiro é levado a uma punição e as câmeras mudam, mostrando o sistema de segurança interno, em sincronia com sua surra. O Pistoleiro (Will Smith) lidera o Esquadrão Suicida, assim nomeado por ele mesmo ao perceber que, não importa a escolha que faça, a morte é uma consequência inevitável.

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A introdução dos personagens pouco conhecidos nas telonas de Hollywood foi de forma rápida. Enquanto Amanda Waller (Viola Davis) explica seu plano de usar os vilões para lutar em uma possível Terceira Guerra Mundial, apresenta um por um aos seus superiores, descrevendo suas infrações e habilidades de forma resumida e nada cansativa. Para dar mais contexto aos personagens, o diretor David Ayer recorreu a memória e usou e abusou dos flashbacks. Através desse recurso, ele tenta tornar tangível tanto quanto visível para o espectador as motivações e emoções decorrentes do passado de cada um.

Todos os personagens têm seu ponto fraco. O pistoleiro espera um dia poder criar sua filha, a Arlequina espera reencontrar seu grande amor e o Comandante Flag espera, com a ajuda do Esquadrão, libertar sua amada possuída pela Magia. Esse triângulo protagoniza as maiores decisões tomadas pelo grupo, e são, claramente, movidos pelo amor.

El Diablo (Jay Hernandez) é renegado por si mesmo. Ao sentir tanta culpa pelo seu passado, ele se torna o tipo perfeito para se sacrificar por uma causa em redenção aos seus pecados. Já Crocs (Adewale Akinnuoye-Agbaje) é um niilista que acredita que tudo que há no mundo é uma grande ilusão, e tudo o que ele quer é uma TV a cabo para poder viver sem ter que participar.

O filme também tem representatividade. A vilã é uma mulher, Magia (Cara Delevigne); a chefe de segurança, uma mulher negra e extremamente poderosa (Viola Davis), assim como os dois protagonistas do Esquadrão, o Pistoleiro (Will Smith) e Arlequina (Margot Robbie).

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Vamos falar sobre Arlequina. Era uma vez, uma psiquiatra que se apaixona pelo seu pior – ou melhor – paciente, o Coringa. Muito freudiano, mas esperado. Enquanto tentava tratar o mestre dos psicopatas, acabou caindo em admiração por ele. Sua paixão resultou em sua transformação, e sua transformação acabou criando uma espécie de personalidade degenerada. No entanto, como já disse Platão, "o amor é uma grave doença mental", e quem já sofre com ela, a tendência é piorar. Assim, Arlequina encontrou a essência de sua personagem psicótica no amor. Porém, o sentimento não teve volta, e ela foi completamente desprezada por ele, o que fez com que ela tentasse a todo custo ser notada.

Arlequina é uma personagem complexa. Dizer que ela é louca apenas é muito superficial. Sempre que pode, coloca a psiquiatria em exercício, como no início, quando os integrantes do Esquadrão se reúnem, ela tenta descobrir um pouco mais sobre eles, supondo acontecimentos traumáticos que pudessem justificar seus comportamentos. No decorrer do filme, se mostra totalmente dissimulada ao disfarçar as suas próprias emoções. Desafiadora e destemida, enfrenta seus adversários com um humor insano e uma pitada de infantilidade, como se usasse desse artifício para ser subestimada e, assim, ficar livre para dar o golpe fatal. No  final, esse método se mostra bastante eficiente. Sem sombra de dúvidas, uma das maiores personagens femininas da DC.

E por falar em protagonismo no Esquadrão, definitivamente, esse status não caberia mesmo ao Coringa. Sua inserção na história foi apenas um teaser da personagem de Jared Letto e, claramente, um coadjuvante na história de Arlequina. Ele estava ali como mentor e recompensa de sua personagem.

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As críticas foram duras em relação ao Coringa nesse filme. E depois de assistir, eu chego a conclusão de que deve ter sido muito difícil aceitar que um personagem masculino tão poderoso seja apenas um coadjuvante na história de uma mulher. Mas é preciso. A sociedade precisa aceitar o protagonismo feminino e o homem por trás da mulher, e não somente o contrário. Jared Letto não conseguiu desenvolver seu personagem com mais densidade porque naquela história não cabia. E se o fez (o que eu não duvido), provavelmente foi anulado porque essa não é a sua história. É a história dela, Arlequina, e do Esquadrão Suicida.

O protagonismo tanto esperado do Coringa nunca existiu. Não nesse filme.

Aline Barros

Aline Barros

Alérgica a leite, viciou-se em café só para poder usar xícaras. Designer gráfico, mãe, blogueira e amante das artes em geral, troca facilmente um par de sapatos novos por um livro velho.