Fernando Diniz: Em Busca do Espaço Cotidiano

O cineasta Leon Hirszman, em parceria com a psicanalista junguiana Nise da Silveira, lança em 1986 o primeiro documentário da trilogia “Imagens do Inconsciente”, baseado em seu livro de mesmo título: o filme “Em Busca do Espaço Cotidiano”.

Para abrir a trilogia, os primeiros momentos do documentário se atenta a situar o espectador no filme. O movimento de câmera inicial parece vasculhar o interior do hospital psiquiátrico público na busca de seu personagem, o Fernando Diniz. As cenas apresentadas, nas suas entrelinhas, não deixam de ser uma crítica, em que tematiza-se a sua acepção sociopolítica, além de acometer a instauração do Museu da Imagem do Inconsciente, situado no Rio de Janeiro, ainda em pleno funcionamento.

Narrado em voz off, primeiro pelo escritor, crítico de arte e ensaísta Ferreira Gullar, que introduz o assunto; em seguida, passa ser conduzida pela atriz e locutora de rádio da época, Vanda Lacerda, encarnando a psicanalista Nise da Silveira. Há também a presença do paciente em dois momentos: quando é filmado de forma espontânea enquanto caminha e produz seus trabalhos; e, no outro, sendo dirigido pelo Hirszman, ao relatar detalhes de sua vida e da sua arte.  

fernando-diniz-nise2

Centrado no paciente Fernando Diniz (1918-1999), o filme aborda sobre a questão das imagens do inconsciente, que engloba o arcabouço teórico cunhado pelo psicanalista suíço Carl Gustav Jung, entre a arte e problemática que passa pelo conflito social de classes, o preconceito cultural e a humilhação existencial.

Fernando Diniz era um mulato, filho de uma empregada doméstica baiana que veio para o Rio de Janeiro aos 4 anos de idade. Em uma das casas onde sua mãe trabalhou conheceu Violeta, uma garota rica, filha da patroa, por quem acabou se apaixonando.

Ao acreditar que se estudasse, poderia se tornar alguém importante e, um dia, se casaria com ela. Inteligente, foi sempre o primeiro aluno da classe. Apesar das dificuldades, conseguiu concluir até o segundo grau e pretendia cursar engenharia. Quando se preparava para o vestibular, fica sabendo que a jovem Violeta se casaria. O choque da notícia abalou a sua estrutura emocional. Diniz, então, submerge em seu inconsciente como uma forma de autodefesa.

Os primeiros anos de tratamento de Fernando foram à base de eletrochoques e coma insulínico. Passou por vários espaços até chegar a um hospital psiquiátrico. Em 1949, passa a frequentar a Seção de Terapêutica Ocupacional, dirigida pela Dra. Nise da Silveira.

Esse ambiente acolhedor do ateliê, muito diferente dos espaços que passou, torna-se algo muito favorável para o desenvolvimento do paciente. Incentivado pelo tratamento alternativo e experimental, Fernando pinta com avidez. Suas primeiras pinturas eram apenas garatujas que refletiam o real estado psíquico que se encontrava naquele momento.

FernandoDiniz-724x1024

Com o tempo, novos Insights da psique do paciente vão sendo apresentados. Suas obras apresentam uma mistura de figurativo e abstrato. A pintura foi uma ferramenta fundamental como meio de expressão para Diniz, possibilitando-o “separar as imagens tumultuadas de emoções e percepções”, além de “conteúdos subjetivos e objetivos”.

De acordo com as observações de Nise, com base em seus estudos sobre “Imagens do Inconsciente”, de Carl Gustav Jung, observa que as pinturas de Fernando evocam o tema mito dragão-baleia que, “sob o impacto de afetos intensos”, expressa “dramas interiores inconscientes”. Mas, no entanto, no caso de Fernando, não é tão profundo esse mergulho, como visto no caso de Adelina Gomes ("No Reino das Mães") e Carlos Pertuis ("A Barca do Sol"). “Os mitos são manifestações originais da estrutura básica da psique.”

Fernando Diniz, mesmo permanecendo em hospital psiquiátrico, produziu sua arte até falecer, em 1999. Deixou um legado de cerca de 30 mil obras entre desenhos, telas, modelagens e tapetes. Foi reconhecido, em vida, pela crítica especializada como artista plástico. Seus trabalhos, além de poder ser conferido no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, têm circulado pelo Brasil e no exterior.

 

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Publicitária, blogueira, produtora e cineasta. É cofundadora do EntreLinha Blog, do Coletivo PAUSA e da websérie "Uma Pausa para o Café...", além de colunista do Design & Chimarrão.