“Gilmore Girls – Um Ano Para Recordar” e os ciclos [sem spoilers]

O revival de "Gilmore Girls – Um Ano Para Recordar" trouxe um pouco de como estão as garotas nos dias de hoje, quase dez anos depois do final da sétima e última – até então – temporada. Algumas crises superadas, outras ainda arrastadas, elas vieram mostrar que ainda têm muita história pra contar.

Se vai continuar ou não, ainda não sabemos. Mas, nesse primeiro retorno, seria impossível não abordar a morte de um ator que era parte essencial da série, o Edward Herrmann, falecido em 2014 aos 71 anos, interpretou o patriarca Richard Gilmore.

Com a ausência de um personagem tão significante, a história acabou se desenrolando em torno de sua morte. As mudanças e as reflexões que a morte traz conduziram as personagens à reviravoltas surpreendentes e emocionantes.

Os autores acertaram no tom saudosista, tanto no que diz respeito ao retorno das personagens, quanto em relação a ausência de Richard. Entre elas, todos estavam em perfeita harmonia e convivência, o que acabou gerando uma certa expectativa, pois para quem assistia parecia um reencontro, mas ficou bem claro que a vida não parou em Stars Hollow.

Quem conhece os diálogos eufóricos de GG sabe que é preciso fôlego para acompanhar as inúmeras referências que as meninas citam ao longo da série. Esta é uma das características mais marcantes da série. No revival não teve um nada a menos: filmes lançados no ano, livros, bandas, Uber e muitos outros. É assim que a série se coloca no tempo de hoje sem precisar se apoiar em redes sociais ou uso dos smartphones.

Ok, mas e as garotas?

Rory e a crise dos 30

No final da sétima temporada, Rory esbanjava sucesso ao aceitar o emprego de jornalista onde iria cobrir a campanha para presidência de Barack Obama, e recusar o pedido de casamento de Logan. Nesse momento, ficamos com a sensação de que, finalmente, faria tudo diferente da mãe e se tornaria aquilo que ela e a mãe sonharam. Sempre foi muito exigente consigo mesma, buscando e desejando voos altos, como todos ao fazer planos para o futuro.

Em seu retorno, Rory está claramente em uma crise dos trinta. Desapontada com a sua situação atual, menciona várias vezes a sua idade, a falta de dinheiro e de um emprego e até por estar solteira. Em Stars Hollow, inclusive, existe o Grupo dos 30 e poucos, que são os jovens que "fizeram faculdade, foram conhecer o mundo real, que os cuspiu como chiclete velho e agora voltaram para os seus antigos quartos". Não só Rory como todos interpretam esse retorno como um fracasso na vida, tanto que todos tentam torná-la parte do Grupo, enquanto ela se recusa a admitir que está de volta à cidade (I'am not back!).

Depois de todas as expectativas, constatamos que Rory é gente como a gente: esnoba os caras legais, se envolve com homens comprometidos, está desempregada e de volta à casa da mãe, pronta para mudar de planos e recomeçar.

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Lorelai: tradicional ou contemporâneo?

Lorelai sempre foi conhecida por ter dificuldade em se estabilizar em um relacionamento amoroso. Por inúmeras vezes, seus motivos eram sempre relacionados a sua filha adolescente e, com isso, o medo de se fixar a alguém que não fosse bom para as duas.Tanto isso aconteceu que, a única pessoa com quem Lorelai havia morado antes de Luke foi Christopher, pai de Rory. E chegaram a se casar.

Como era esperado, esse casamento não durou muito, e Lorelai ficou livre para consertar as coisas com Luke. E foi um sucesso. Nove anos depois, eles ainda continuam juntos. Mas o que fazer agora que Lorelai não precisa mais se preocupar com Rory?

Depois de algumas sessões de terapia em conjunto com sua mãe, Lorelai percebe que sua estabilidade amorosa está sendo controlada por ela de uma forma individualista. Percebeu que acabou determinando a situação da sua relação, sem a participação de Luke, ao escolher onde iriam morar, se teriam filhos, ou mesmo se eles se casariam. Ao se dar conta de que adormeceu num problema antigo, decide fazer uma viagem e repensar toda sua situação. Ao voltar, está decidida em relação ao casamento.

Particularmente, esse “detalhe” na relação dos dois não precisaria ser de tanta importância para Lorelai, que já tem uma vida estável, tranquila e feliz ao lado de Luke. Mas aqui, o casamento representa muito mais do que os votos. Lorelai, como mulher independente e a frente do seu tempo, está acima das questões tradicionais e convenções sociais. Para ela, a cerimônia representa a superação e o enfrentamento de um medo que não existe mais.

GILMORE GIRLS

Emily e o recomeço

Kelly Bishop não se esqueceu de como a altiva e classuda Emily Gilmore era. Porém, com uma triste reviravolta na vida real e a consequente morte de Richard, a personagem teve que se adaptar a vida de viúva. E não poderia ter sido de maneira melhor. Emily finalmente se descobriu mulher.

Com a perda do marido, ela foi obrigada a repensar sua vida e o que realmente fazia sentido pra si. O papel de socialite era como um pilar para a imagem de seu casamento, onde, em conjunto com seu marido, formavam um exemplo de etiqueta e convenções admiráveis para a aristocracia americana. Sem ele, já não tinha mais o porque sustentar essa imagem. Ao deixar de se preocupar com o casal, ela pôde olhar um pouco mais para si mesma, onde se descobriu capaz e autônoma para tomar grandes decisões, como comprar uma casa ou mesmo trabalhar (!). Emily sem sombra de dúvida foi a grande personagem do revival. Gerou expectativas em relação ao seu destino, e seu plot não poderia ter sido melhor conduzido.

A história se faz de mulheres modernas e feministas sim, mas não com menos crises. Mulheres que têm o mundo à seus pés, mas sentem medo de tomar decisões e perder o controle da sua própria independência, e lutam para não se tornarem iguais aos modelos que conhecem: Lorelai vive para ser diferente de Emily, e Rory vive para ter uma história diferente da mãe.

Mas até onde conseguimos fugir dos nossos modelos? As histórias se repetem em outro contexto. Rory repete o plot da mãe, em uma outra idade; arranja para si mesma um “Christopher” (Logan) e um “Luke” (Jesse). Emily, assim como Lorelai fez um dia, foge das amarras elitistas em que vivia. E Lorelai finalmente se torna esposa e mãe de família, criando um ciclo de acontecimentos que se repetem e passam de uma geração para outra, fazendo a tradução da série para o português ter ainda mais sentido: tal mãe, tal filha.

Gilmore Girls tem a característica dos primeiros episódios, onde as personagens estão sempre maquiadas e bem vestidas. Não excessivamente como as novelas brasileiras, porém, ainda me incomodou o excesso de saltos que elas usam. Apesar da cena hilária de Paris surtando no banheiro de Chilton ao segurar a porta com seu scarpin, o uso me pareceu forçado para mostrar que as nossas meninas já cresceram. Mais uma questão de produção do que de roteiro.

Aline Barros

Aline Barros

Alérgica a leite, viciou-se em café só para poder usar xícaras. Designer gráfico, mãe, blogueira e amante das artes em geral, troca facilmente um par de sapatos novos por um livro velho.