“Guerra Fria”: além do amor em tempos de guerra

Após o excelente drama "Ida" (2015), dirigido pelo cineasta polonês Pawel Pawlikowski, obra com inúmeras premiações, inclusive o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, nos impacta novamente com "Zimma wojna", intitulado no Brasil como "Guerra Fria", exibido na 42 edição da Mostra Internacional de São Paulo.

Inspirado na história de seus pais, ao qual é dedicado o filme, "Guerra Fria" retrata a opressão durante o pós-Segunda Guerra Mundial e década 60 através do conturbado relacionamento amoroso de Wiktor (Tomasz Kot), pianista e compositor, fã de jazz, que trabalha na companhia de música Mazurek Ensemble, e Zula (Joanna Kulling), uma jovem interiorana, tempestuosa com um passado obscuro, que passa a integrar o grupo de artistas que se preparam para uma turnê de performance de música e dança tradiconais polonesas. Mas, no entanto, a companhia se vê forçada, em dado momento, a servir de ferramenta de propaganda stalinista, a qual Wiktor se recusa fazer devido posicionamento político.

Entre encontros e desencontros, a complexa relação dos protagonistas está intrinsecamente ligado ao contexto sociopolítico que ambienta a história e a música, e à medida que ambos vão se afastando desse cenário hostil, mais devastado torna-se o relacionamento entre os amantes.

Dividido em episódios, o filme traz diálogos mais frios e diretos, até mesmo pela urgência do momento vivido pelas personagens, e a ausência da trilha sonora causa um maior impacto e realismo a obra, mas há música, e essa só é ouvida quando está presente na diegese.

As elípses temporais",  sempre interrompidas de forma seca, além de simbolizar um reflexo da própria guerra, intensifica essa atmosfera psicológica das personagens no filme, ao qual o cineasta também dá ao espectador um espaço para interpretar essas lacunas. E a primorosa fotografia em preto e branco, o formato 4:3 da tela, quadrada, e os enquadramentos mais fechados dos protagonistas nas cenas, amplificam essa sensação claustrofóbica, opressora e de vazio em que as personagens se encontram.

"Guerra Fria" é, sem dúvida alguma, um filme belíssimo que destaca-se, ao meu ver, pela estética, a forte presença musical, principalmente das apresentações de músicas tradicionais e folclóricas polonesas, que é um show à parte, e de como o cineasta costura esse elemento a narrativa, a ótima direção de fotografia de Lukasz Zal, que também assinou "Ida", do mesmo diretor, e o maravilhoso "Com Amor, Van Gogh, dos cineastas Doreta Kobiela e Hugh Welchman, a direção certeira de Pawlikowski e as ótimas atuações, em especial de Joanna Kulig, a Zula.

 

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e cofundadora do EntreLinha e Coletivo Pausa. É cinéfila, amante das artes e da literatura.