“Her”: além das relações afetivas

“[Samanta]: Você acha isso esquisito? Você me acha esquisita? [Teodoro]: Mais ou menos. [Samanta]: Por quê? [Teodoro]: É que você parece uma pessoa, mas é na verdade apenas uma voz dentro de um computador. [Samanta]: Entendo que a perspectiva limitada de uma inteligência não artificial pense assim. Mas você vai se acostumar. [Teodoro ri] [Samanta]: Você achou isso engraçado? [Teodoro]: Sim. [Samanta]: Que bom! Eu sou engraçada!” (diálogos extraídos do filme HER)

 

“Her” (Ela), do diretor e roteirista Spike Jonze, é um filme muito interessante que merece ser observado mais atentamente, principalmente em suas entrelinhas. Para quem ainda não viu, recomendo que assista. Fique tranquilo, não vai rolar spoller por aqui.

O filme surgiu da leitura de um artigo sobre Cleverbot, e nada mais é que programa de computador desenvolvido pelo britânico Rollo Carpenter, um dos veteranos da Inteligência Artificial, que simula uma conversação humana sem ter a impressão de que está se comunicando com um programa. Através dessa fagulha, o cineasta dá forma e vida ao filme.

“Her” parte da história de um homem comum e solitário chamado Theodore, interpretado pelo ator Joaquin Phoenix, com seus conflitos afetivos, inseguranças, dúvidas, além de sua dificuldade de se relacionar com outras pessoas. No entanto, sua vida passa a ganhar outro significado quando conhece Samantha, voz de um sistema operacional para computador. À medida em que vão se conhecendo, Theodore passa a se envolver emocionalmente até que amizade se transforma em amor.

Embora avanços tecnológicos, que traz consigo grandes benefícios a sociedade, e as novas formas de se conectar e relacionar com outras pessoas, sejam elas, através das redes sociais, Tinder, Whatsapp, entre outros tipos de aplicativos e softwares existentes, nos aproximam e nos afastam.

Vejo que a questão do filme vai além das novas configurações do amor na contemporaneidade. O cineasta Spike Jonze se utiliza dos fantasmas rondam sobre o assunto homem-máquina para levantar questões sobre a Inteligência Artificial (IA).

Stanley Kubrick, no clássico de ficção científica “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (1968), trouxe como uma das camadas de seu filme o IA, no qual mostra Hall, o computador, que era capaz de conversar com abordagens diversas, jogar xadrez com os tripulantes e até mesmo matar uma pessoa.

A Inteligência Artificial não abrange somente a robôs ou computadores capazes de executar funções com maior eficiência, como muitas vezes pensamos. Cada vez mais presente em nosso cotidiano, como, por exemplo, a Siri – sistema operacional de voz do iPhone e iPad –  e no Google Now, vem de diferentes áreas da Inteligência Artificial. 

O que vemos no longa-metragem “Her” é definido, segundo o diretor executivo da CI&T, Mars Cyrillo, de “Inteligência Artificial Hipotética”, ou seja, o filme mostra um tipo de inteligência que é capaz de executar tarefas intelectuais semelhantes ao ser humano. Porém, as personagens de Theodore, seu chefe Paul e sua vizinha, Amy, interpretada pela atriz Amy Adams, buscam no virtual um “modelo de perfeição” como algo a ser alcançado.

É interessante observar também que o “futuro” apresentado no filme não é demarcado. O cenário, as cores e o figurino, que remete a década de 60 e 70, são elementos que descaracterizam o tempo e o espaço. Não há uma identificação com lugar algum, ou seja, é anônimo.

Não é pra menos que o filme foi premiado no Globo de Ouro como Melhor Roteiro de Cinema e Oscar de Melhor Roteiro Original, na ADG Excellence in Production Design Award Feature Film – Contemporary Film, Critic's Choice Award faturou mais um prêmio de Melhor Roteiro Original e ainda recebeu quatro indicações ao Oscar 2014, surpreendendo muita gente que duvidava sobre a força do filme na corrida ao Oscar.  

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.