Hilda e Eu

 

Por Felipe Bomfim, mestre em Multimeios pela Unicamp

Na entrada recomendavam deixar para trás outros pensamentos e aceitar o desafio de vagar com atenção pelo espaço da exposição. Segui meus primeiros passos e me deparei com o poema dedicado à artista plástica Maria Bonomi. A companhia das aquarelas em tons pastéis fazia o texto flutuar enquanto eu ia, lentamente, configurando o espaço liberado do cotidiano. Um sopro cálido alcançou meu rosto na força das palavras: “e meu passo / àquele grande e mais pausado passo de ave se parece”.

Vi os rascunhos e as anotações que, para minha surpresa, foram feitos em papéis timbrados da Unicamp – tão conhecidos por mim. A leitura dos escritos, recheados de rabiscos e comentários, ressignificava o valor daquelas folhas timbradas a todo o momento. Uma cômoda de cor imbuia e bastante robusta dissimulava suas gavetas que aos poucos se revelavam a mim em charges e lembretes.

A mobília se estendia mais adiante e desenhava um quarto confortável, onde seus livros se esparravam pelo cômodo. Ali permaneci um instante, quase com a serenidade de lê-los na cabeceira da cama – lugar onde tudo se permite. Meu olhar tornou-se o de um matemático magiar num retiro e meus pensamentos pediam licença entre duas senhoras; uma obscena, outra transgressora: D e Lamby – e sequer tenho certeza de tudo isso.

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Outras perguntas somaram-se a minha leitura até o momento em que desapareceram na mesma velocidade que surgiram. Então ouvi a frase de Hilda: “Eu tinha que sacudir as pessoas e toda frivolidade, a futilidade de cada dia”. Impressionaram-me os versos dos poemas inéditos, como os cardos do velho mundo que se naturalizavam em terras férteis brasileiras. Percebi que tudo tem o seu lugar de brotar, assim como a “doce poesia entupindo o cano” que passava das mãos de Hilda às de Ferreira Gullar.

E assim, os versos irrompiam, me mastigavam e engoliam: “Que te devolvam a alma / Homem do nosso tempo”. Escancarei a boca e retruquei em silêncio – pois a guia da exposição me alertava que já era dada à hora – “A ALMA. A ALMA DE VOLTA”.

Na saída, os latidos ouriçados dos vira-latas da Casa do Sol se impregnavam da frase de Hilda, que se repetia na minha cabeça: “fico besta quando me entendem”, e embriagado de fervor – de lucidez, de intensidade – afirmei a mim mesmo que estou no mundo; pensei: Hilda, quero te entender um pouco mais.

Ocupação Hilda Hilst

 

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