“Iluzija”: o olhar realista e sensível de Ristovski

"A esperança é o pior dos males, pois prolonga os tormentos do homem."

                                                                                                                  Friedrich Nietzsche

 

Com direção do cineasta Svetozar Ristovski, o filme pós-Iugoslavo "Iluzija" (2004) traz um olhar realista, duro e, ao mesmo tempo, sensível da juventude e da própria sociedade na Macedônia após a dissolução da Iugoslávia, em que a instabilidade econômica e a depravação social, segundo a autora Dijana Jaleca no livro "Deslocated Screen Memory: narrating trauma in Post-Yougoslav Cinema", legados dessa tumultuada ruptura, o "fim do socialismo, e a determinação do captalismo neoliberal – são marcadores persistentes da realidade pós-conflito e pós-socialista", que é bem explorado no filme.

A história de "Iluzija" se passa em Vales, na Macedônia, onde acompanhamos a vida de Marko Kovacevic, um garoto de 12 anos, bom aluno, gosta de ler, que chama atenção do professor bósnio, interpretado pelo ator Mustafa Nadarevic, pela forma da sua escrita, ao qual o incentiva a escrever um poema para participar de uma competição que iria recompensá-lo com uma viagem à Paris. Para estimulá-lo, o professor emprestava livros e orientá-o nesse intento para aproveitar essa oportunidade única de, quem sabe, no futuro, se tornasse alguém, um escritor.  

Marko vive em meio ao caos. No ambiente familiar, convive com a mãe, Angja (Elena Mosevska), é uma mulher aterrorizada pela violência e o abuso dentro de casa, muda, apenas vegeta; o pai abusivo, Lira, interpretado por Vlado Jovanovski, é um alcóolatra, desempregado e viciado em jogos de bingo, luta contra a ocupação americana na Macedônia, também presente na região aonde mora; e a irmã, a abusiva Fanny (Slavica Manaskova). O garoto é desprezado por todos e maltratado pela irmã e o pai.

Na escola, sofre constantemente bulling e agressões físicas de um grupo de garotos da sala, deliquentes, que além de roubar e vandalizar, também provocam e humilham o professor dentro e fora do espaço escolar por ser bósnio. Lutando contra seus próprios dêmonios e por medo, o professor não pode fazer muito, pois o pai de um deles é chefe da polícia, corrupto, que faz todas as vontades do filho.

Marko refugia-se diariamente num vagão de trem abandonado, ali, isolado de todos, tenta encontrar um pouco de paz e tranquilidade para estudar; nada contra a correnteza. Sonha em fugir do mundo sombrio e cruel em que nasceu. Certo dia, um misterioso estrangeiro aparece no vagão aonde sempre se refugia, cujo nome, coincidentemente, é Paris (Nikola Djuricko). Marko logo faz amizade com o estranho, que alimenta sua esperança de sumir dali. Numa partida de xadrez, Paris coloca no tabuleiro uma bala de arma para repor uma peça que faltava à Marko, a cena é uma metáfora dos perigos que rondam o garoto.

Inconscientemente, Marko busca uma figura parterna para se espelhar, ora é o professor, ora é Paris, mas à medida que vão se conhecendo, ele passa a ver Paris também como um tutor, que o ensina a se defender e a praticar furtos para conseguir sobreviver quando partirem dali. Porém, um dia, circunstâncias leva o garoto ao limite.

Pertubador e angustiante, o filme nos choca. Não tem como sair ileso. Espelhado na citação do filósofo alemão Friedrich Nietzsche que abre o texto, bem como no filme, nos apresenta um retrato das condições sociais na Macedônia pós-independência, atormentada pela violência, currupção e anomia, algo recorrente no filme, numa dimensão universal.

A trilha sonora, assinada por Klaus Hundsbichler com participação de Eric Satie, marca esse ar sombrio no filme, bem como a fotografia, de Vladimir Samoilovski, muito bem composta, que traz ao mesmo tempo a beleza estética e a aspereza, e, é claro, notavel atuação do estreante Marko Kovacevic.

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e cofundadora do EntreLinha. É cinéfila, amante das artes e da literatura.