“Les Fantômes d’Ismaël”: um dos filmes mais ambicioso de Arnaud Desplechin

O penúltimo filme lançado pelo diretor francês Arnaud Desplenchin, "Les Fantômes d'Ismaël", que inclusive abriu a 70ª edição do Festival de Cannes, em 2017, traz uma proposta ambiciosa e nos fisga de cara com elenco principal da trama, os consagrados atores Mathieu Amalric, Charlotte Gainsbourg e Marion Cotillard.

Com uma trama bem interessante, "Les Fantômes d'Ismaël" inicia-se dentro do imaginário do famoso cineasta Ismael Vuillard (Mathieu Amalric) enquanto roteiriza seu novo filme tendo como ponto de partida o irmão mais novo, Ivan, retratado em sua ficção numa vida dupla: diplomata e agente secreto, interpretado pelo ator Louis Garrel (diretor do ótimo "A Faithful Man" (O Homem Fiel, 2018).

Fragmentada ao longo do filme, essa subtrama apresenta uma estética e linguaguem distinta da narrativa central, que retrata a vida de Ismael (alter-ego de Arnaud Desplenchin), um homem que tenta recuperar-se do trauma do seu relacionamento com Charlotte (Marion Cotillard), desaparecida há mais de vinte anos, restando dela apenas um quadro pintado pelo seu próprio irmão, também ausente, no qual ainda os assombra. 

Em meio a uma crise criativa, ao qual tem impedido-o de dar continuidade ao roteiro, bem como os cuidados com seu ex-sogro, Henri, interpretado por László Szabó, que ainda sofre com sumiço da filha, já dada como morta, e o namoro com a astrofísica Sylvie (Charlotte Gainsbourg), juntos há dois anos, Ismael depare-se com uma situação inesperada. Charlotte (Marion Cotillard) reaparece após anos de abandono com o intuito de retomar sua vida junto à ele abalando não apenas o novo relacionamento, como a própria estabilidade até ali alcançada.

A fotografia, bela por sinal, assinada pela Irina Lubtchansky, que também é a responsável pelo "Oh Mercy", nova produção de Arnaud Desplechin, é um dos pontos positivos do longa-metragem. O cineasta faz uso da metalinguagem, apresenta referências e citações literárias e filmicas, apropriando-se delas – como, por exemplo, "O Teatro Sabbath", do escritor Phillip Roth, "Vertigo" (1958), do emblemático Alfred Hitchcock, e o cinema berguiano.

"Les Fantômes d'Ismaël" é um filme dentro do filme, de espelhos, complexo, que transita por vários gêneros cinematográficos. Embora a história apresente um grande potencial e um roteiro ousado, as subtramas que são tecidas junto a principal acaba, em dado momento, ficando confusa devido o seus vais e vens contínuos sem nenhuma coesão, o que acaba dando um caráter mais episódico ao filme, o que não é bem a proposta. Mas, por outro lado, isso também expressa o que se passa no interior do protagonista, que encontra-se com o emocional extremamente abalado; e à medida que a trama avança, mais caótico sua vida se torna. O cineasta conduz o filme junto a loucura de Ismael.

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.

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