Leviatã: a decadência da sociedade e humana

Complexo, intenso, profundo e crítico, bem crítico. “Leviatã”, do cineasta Andrey Zvyaginsev, é um filme à queima roupa. É um retrato nu e cru, tanto da decadência humana quanto da própria sociedade russa.

O filme critica, sem rodeios, a onda de corrupção que a Rússia mergulhou na pós-queda do comunismo. E não é para menos que o filme tem gerado muitas controvérsias no país, principalmente entre as autoridades políticas e religiosas, que são alfinetadas na obra cinematográfica.

“Leviatã” trata sobre a história de uma família que briga na justiça para não perder suas terras para o prefeito (Ramon Madianov) corrupto de uma cidade situada na região do Mar de Barents, no litoral da Rússia. Para conseguir vencer, Kolia (Alexeï Serebriakov) conta com a ajuda profissional do amigo e advogado Dimitri (Vladimir Vdovitchenkov), que tenta por vários meios levantar provas irrefutáveis e obscuras do prefeito Vadim fazendo-o  desistir do seu intento. Nesse meio tempo, Dimitri passa a manter um caso com Lilya (Elena Liadova), esposa de Kolia.

leviathan-2014-003-kolia-in-long-grass

“Leviatã”, além de ser inspirado na história real de Marvin Heemeyer, traz fortes referências bíblicas e do próprio livro que intitula o filme, publicado pelo filósofo e cientista político inglês Thomas Hobbes, em 1651.

Para o filósofo, “o homem é o lobo do homem”, ou seja, em seu Estado Natureza, todo indivíduo é ambicioso, egoísta, vil e instintivo. Portanto, para que possa evoluir e evitar a morte do homem era preciso um Estado legítimo, justificado pela razão.

O Estado, representado por Hobbes (1588 – 1679) como Leviatã, monstro citado no livro de Jó, é um “mal necessário”. Segundo o pensador, era o único caminho para o homem, independente do “Estado Natureza”, garantir tanto a paz, a segurança quanto à “liberdade real”, não a liberdade no sentido “ser livre”, mas sim, a ausência de oposições. Ao fazer essa analogia, o cineasta mostra que o pensamento hobbesiano, embora tenha sido cunhado há séculos atrás, ainda sobrevive na sociedade atual. 

leviata-filme-002 

A fotografia, belíssima por sinal, é marcada por suas cores frias e ar sombrio, ganham maior intensidade ao som da trilha sonora incisiva, que reforça a ideia da complexidade das relações humanas e da decadência de uma sociedade em que os indivíduos são corruptíveis e hipócritas.

"Leviatã", por se tratar de uma história universal e intemporal, leva o espectador a questionar e refletir sobre os problemas do mundo que o cerca. 

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e cofundadora do EntreLinha. É cinéfila, amante das artes e da literatura.