“Lluvia”: a solidão e o vazio na metrópole

Mais uma vez o acaso presenteou essa cinéfila com um filme muito interessante. O longa-metragem “Lluvia” (Chuva), da cineasta Paula Hernández, é uma produção argentina, que aborda sobre a solidão e o vazio. De cara, deparamos com a dualidade do título da obra cinematográfica. 

Narrado com um ritmo lento, porém, bem marcada, a cineasta leva para a tela uma história aparentemente banal, de uma jovem chamada Alma (Valeria Bertuccelli), que há três dias saiu de casa deixando para traz um casamento de nove anos e passa morar em seu carro; e Roberto (Ernesto Alterio), um engenheiro espanhol que, após 30 anos, retorna à capital Argentina por conta da morte de seu pai, que não tinha mais contato.

Ambos se conhecem por acaso num engarrafamento em um túnel da cidade, causado por acidente devido à forte chuva que caia. Na forma que se dá esse encontro gera, a princípio, certo estranhamento. Introspectivos e melancólicos, Alma e Roberto evitam mencionar sobre fatos mais íntimos.

O espectador, bem como as personagens, nada sabe sobre o outro, apenas algumas pistas sutis. Há segredos que não querem ser revelados. É a partir desse encontro inesperado que a vida dos protagonistas passa a ganhar um novo significado. No entanto, aqueles dois estranhos acabam sentindo uma conexão inexplicável, na qual vai sendo revelado, aos poucos, um ao outro, os segredos que os permeiam. 

Os personagens vivem, ao longo do filme, numa “espécie de loop do tempo e do espaço”. Andam em círculo pelo perímetro urbano; sem rumo, perdidos. Outro ponto importante é o cuidado da cineasta Hernández na construção das personagens, a qual envolve o espectador na trama.

A estética do filme, marcada por uma bela fotografia de tonalidade cinza/azul (cores frias) e enquadramentos bem pensados, reforça a melancolia e o vazio dos personagens, além de potencializar a solidão de ambos. Embora estejam inseridos numa metrópole, ainda assim, sentem-se sozinhos em meio à multidão. É uma sensação que dá para ser sentido ao longo do filme, reforçado pela chuva.

Constante e onipresente no filme, a chuva provoca incômodo, certa aflição e melancolia. Simbolicamente, ela representa os sentimentos, o estado de espírito das personagens. Dado momento de “Lluvia”, o sol aparece, e traz consigo novos significados à narrativa, além de anunciar, nas entrelinhas, a chegada de um novo ciclo.

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.