Mestre Julio Santos e a arte da fotopintura

"(…)
O retrato não me responde,
Ele me fita e se contempla
Nos meus olhos empoeirados.
E no cristal se multiplicam (…)”

(trecho extraído do poema “Retrato de Família”, Carlos Drummond de Andrade)

 

Quando eu bem era pequena, lembro que ficava bem intrigada com aqueles retratos de família com moldura oval e o fundo azul celeste pendurados na parede da casa minha bisa e avós maternos. Muitas vezes, na época, observava as imagens sem conseguir entender ao certo se tratava de uma pintura ou fotografia. 

Descobri mais tarde que, na verdade, aqueles retratos se tratavam de uma fotopintura, técnica que surgiu na França, na segunda metade do século XIX, com o intuito de “melhorar” os retratos fotográficos realizados no período. 

Dezesseis anos depois ao invento da fotografia, o pintor, litógrafo e fotógrafo alemão Franz Seraph Hansfstaengl (1804-1877), causou grande impacto ao expor, em Paris, as primeiras imagens fotográficas retocadas. Essa ruptura permitiu descortinar novas possibilidades, até então, não imaginadas. Ao partir desse princípio, em 1863, o fotógrafo francês André Adolphe Eugène Disdéri (1819-1889) desenvolveu o processo da fotopintura, como conhecemos hoje.

No Brasil, a técnica da fotopintura esteve no auge entre as décadas de 40 e 80. Presente tanto no Sul quanto no Sudeste, foi na região nordeste do país que a fotopintura tornou-se bem popular. Embora as poses fossem parecidas uma com as outras, as imagens fixas ali carregavam em si uma história única.

No documentário “Câmera Viajante”, de Joe Pimentel, o Mestre Júlio – grande nome da arte da fotopintura no Brasil – menciona que era possível resgatar parte da vida do retratado, “porque história nada mais é que do que aquilo que ele pode ver, transformado em visual aquilo que já não tinha mais possibilidade de ver”.

Segundo o mestre Júlio, “a alma da fotografia é mais viva que a nossa alma. Ela carrega um momento único. Nós somos capazes de envelhecer, a alma da fotografia não, ela está num santuário. É essa a posição. É por isso que sempre voltamos a reverenciar a fotografia de alguém a quem queremos bem. Uma fotografia não é um espelho. Diante de um espelho sempre queremos parecer jovens, matéria de consumo, cometemos os mesmos enganos. Diante de um espelho você não se perdoa, quer ser bonito, adorado, encantador, quando na verdade o tempo já lhe tirou essa possibilidade. Uma fotopintura é o avesso de tudo isso."

A partir do século XX, com o advento das novas tecnologias, a arte da fotopintura quase entrou em extinção. No entanto, ela acabou renascendo em meio a essas mudanças, no qual ficou conhecida como fotopintura contemporânea. 

 

 

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e cofundadora do EntreLinha. É cinéfila, amante das artes e da literatura.