O Cidadão Ilustre

por Nádia Barbosa, poeta e doutora em Literatura Comparada (nadige@gmail.com)

"O Cidadão Ilustre" narra a história de Daniel Mantovani, um premiadíssimo escritor argentino que decide voltar, pela primeira vez, em 40 anos, a Salas, sua cidadezinha natal, para receber homenagens de seus concidadãos.

Tudo indica que a  literatura de Montovani alimenta-se de suas experiências do passado. O escritor faz em seus livros uma espécie de caricatura que, embora traga traços universais, é centrada na população de Salas, gerando ressentimentos no povo da pequena cidade.

Entre outras, o  filme faz alusões críticas à política do  populismo e a coisas “pequenas”, que nem sempre são consideradas. A cultura provinciana, a violência e a pequenez da política são expostos na narrativa.

Aparentemente simples, o enredo do filme fala de um escritor argentino que vive em Barcelona e que recebeu o Nobel de Literatura. Mantovani é convidado pela prefeitura  de Salas para visitar o povoado  e receber homenagens. Para surpresa de todos, dele próprio inclusive, o escritor aceita  o convite.

Inevitavelmente, o filme me fez lembrar (por um viés irônico) de Jorge Luís Borges, argentino, também cosmopolita, que nunca foi contemplado com o prêmio máximo da literatura, a despeito de sua genialidade que sempre se ocupou de temas universais. Mas, na ficção, um provinciano, igualmente universal, chega lá.

Num misto de humor e drama, o filme ainda traz à tona o papel da arte em um mundo tão pragmático, desde ambientes cosmopolitas aos mais provincianos possíveis, questionando, de certo modo,  o lugar de Mantovani entre os dois extremos.

Daniel Mantovani, um latino-americano laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, em discurso mordaz de agradecimento, remeteu-me à máxima “um homem não merece ser consagrado em vida”, proferida por Sartre, na ocasião da recusa do mesmo prêmio. Quebrando protocolos, o escritor não usa o traje tradicional na cerimônia, tampouco faz reverência ao rei e à rainha suecos.

Com certo humor, a trama se desenrola, sempre tangenciando, questões relacionadas ao universo literário, o filão da história, eu diria. A atenção dada por Montavani ao recepcionista do hotel, lembra um pouco a de Neruda, outro latino-americano, em relação ao carteiro, em "O Carteiro e o Poeta", dos diretores Massimo Troisi e Michael Radford. Isso é nobre.

Cidades pequenas como Salas, em geral e por motivos diversos, reproduzem sem piedade, o que os seres humanos têm de pior. Por isso, muitas vezes se prestam a temas categóricos, para literatura. No filme, essas reproduções, como já dito, chegam a ser caricatas, marca da obra de Montavani, pelo que parece, e o exagero da caricatura nos põe em frente a duas  questões: a da fronteira entre a realidade e a ficção, presente na literatura e a de qual a importância disso.

Nos primeiros minutos do filme, a narrativa parece sinalizar o problema realidade x ficção, quando o escritor, a pedido do motorista que foi buscá-lo no aeroporto, enquanto esperavam socorro por conta do enguiço do carro, relata uma de suas histórias, que envolvia dois irmãos, um com barba e outro sem, e a tragédia de um ter matado o outro. Curiosamente, o personagem inicia o filme com barba e, ao final, na entrevista coletiva decorrente do seu novo livro, cuja história é a que se passou ao longo do filme, Montavani aparece com a cara diferente, sem barba.  A sequência final conduz à dúvida, de que se, de fato, aquilo está acontecendo ou é o escritor que está imaginando. Se o filme inteiro não é uma ficção dentro de outra, as últimas cenas me parecem que são: o embarque na pick-up, com aqueles dois loucos violentos; ele em pé na boleia, no caminho escuro, que o levaria a uma  suposta morte, as imagens de todas as pessoas do povoado, uma por uma, que passaram a odiá-lo, olhando-o de modo raivoso e “macabro”, a amedrontá-lo, tudo isso não me pareceu real. Por fim, o fato do personagem sobreviver ao tiro certeiro disparado por um dos loucos, em sua direção. Tudo leva a crer que o filme é um exercício, muito feliz, de metalinguagem, ou seja, a linguagem literária, refletindo sobre ela própria, por meio do cinema.

No filme, cuja direção é da dupla argentina, Gastón Duprat e Mariano Cohn,  destaque para Oscar Martínez, melhor ator no Festival de Veneza, de 2016, que está excelente e  para o roteiro inteligente de Andrés Duprat. O filme está no Netflix. Recomendo.

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