O gnosticismo em “O Homem que Caiu na Terra”

Durante o evento em homenagem ao David Bowie, realizado entre os dias 11 a 15 de abril, no Instituto de Estudos Linguísticos (IEL-UNICAMP), eu, Erica Ribeiro, juntamente com a Aline Barros, ambas fundadoras do EntreLinha, abrimos o miniciclo comentando o filme de ficção científica “O Homem que Caiu na Terra” (1976), dirigido pelo cineasta Nicolas Roeg, baseado no clássico da literatura de ficção científica britânica, de mesmo título, de Walter Tevis, publicada em 63.

David Bowie estreia no cinema no papel de um extraterrestre que se apresenta em forma humana, o Thomas Jerome Newton – nome que faz alusão a um dos inventores mais férteis de todos os tempos, Thomas Edson. Ele vem a Terra com o objetivo de levar água para salvar sua família, pois, em seu planeta, com sua escassez, está morrendo aos poucos.   

Para dar continuidade a sua missão, além de encontrar a água, também precisa buscar uma forma de construir uma nave espacial que pudesse transportá-la até o seu planeta. No entanto, suas revolucionárias invenções e inteligência acabam atraindo a atenção de grandes corporações que tentam corrompê-lo. Com isso, ele acaba dando de cara a ganância e a crueldade humana, o que torna sua missão mais complicada.

“O Homem que Caiu na Terra é um filme gnóstico Cult – do grego, gnosis, que significa “conhecimento” e “gnostikos”, “aquele que tem o conhecimento” -, que traz uma roupagem comercial. Sua narrativa apresenta elementos da mitologia gnóstica – que passa ser inserida no cinema a partir do século XX -, em que explora o mito da “Alma decaída”, na qual “envolve uma agitação do protagonista durante a vigília por algum poder latente ou um presente que o obrigue a cumprir um destino heróico”. Mito que gera a pergunta do que é “ser consciente” e “os níveis de consciência que o ser humano pode chegar”.

O filme  também mostra o olhar do estrangeiro sobre os seres humanos e a condição humana, ou seja, às formas de vida que o homem impõe a si mesmo para sobreviver. Vemos nesse personagem a presença do elemento gnóstico “O Estrangeiro”, que é um dos arquétipos da nova mitologia pop, que surge a partir do pós-guerra. Segundo Wilson Roberto Vieira Ferreira, no livro "Cinegnose", um dos pontos do “O Estrangeiro” é “o desdém aos papéis sociais, padrões, modelos de felicidade. É um melancólico.” Independente aonde se encontra, não se sente em casa em lugar algum.

Esse sentimento de estrangeiro, que circunda a década de 70, expresso tanto na cultura pop quando no rock, levou muitos artistas, inclusive o David Bowie, inspirar-se no misticismo e ocultismo para compor suas músicas e criar conceitos para seus álbuns.

No filme, isso é incorporado, não com as canções de Bowie que, na ocasião, chegou a desenvolver algo, porém, não aprovado pelos produtores, mas com trilha “Os Planetas”, do músico Gustav Holst, que é um resultado de seus estudos sobre o misticismo e astrologia, e na própria construção da personagem. 

"O Homem que Caiu na Terra" destaca-se pela sua originalidade, seu formato estético experimental, fotografia, figurino bem cuidado e uma trilha que pontua momentos importantes da trama. O cineasta também busca fugir do esteriótipo e traz um extraterrestre indefeso, frágil e corruptível, uma figura diferente dos filmes de ficção científica hollywoodiana que abordavam essa temática naquele momento. Um exilado em uma terra hostil. 

Além disso, faz uma crítica ao status quo, em que a cultura pós-moderna é mundo de ilusões que produz o conformismo. Uma reflexão a moral e a ética. Um filme bem provocador.

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Publicitária, blogueira, produtora e cineasta. É cofundadora do EntreLinha Blog, do Coletivo PAUSA e da websérie "Uma Pausa para o Café...", além de colunista do Design & Chimarrão.