O nascimento da arte contemporânea e o processo de produção como construção da narrativa

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MOIRÉ, Miló. “The Plopegg Painting”

Arthur C. Danto em seu livro “Após o fim da arte – a arte contemporânea e os limites da história”, pontua a evolução do consciente criador artístico no qual culmina a “morte da arte” no pós modernismo, abrindo espaço para o “nascimento” de uma nova forma de pensar e construir arte.

Danto constrói um pensamento, pontuando a arte como forma de representar o mundo nas primeiras fases da pintura com força artística; passando pelos questionamentos sobre a própria pintura e a exploração dos elementos de representação abordados pelo impressionismo, fauvismo etc; e por fim as questões sobre o que seria realmente a arte, alavancadas por Duchamp e seus deslocamentos e reesignificações materiais questionadores da representatividade artística.

 No período pós moderno até as artes contemporâneas, Danto defende a quebra do paradoxo artístico desempenhado até então, onde eleva a arte a um âmbito filosófico em seus temas, adquirindo “autoconsciência”, que concentra a significação em seu próprio “eu-artista” e “eu-obra”.

Com essa quebra de narratividade concentrada na representação, Danto acredita que mesmo sem seguir um conceito geral, a arte contemporânea detém uma narrativa, pois se apropria das simbologias e significações. O que acontece então é uma narrativa construída num “ego”, onde cada obra teria sua própria forma de enredo.

A artista suíça Miló Moiré “deu a luz” – literalmente – á uma obra de arte na abertura da Art Cologne 2014, na Alemanha desse ano. Moiré expeliu ovos de tinta de sua vagina em uma tela branca esticada no chão, onde em sequência dobrou a tela e alisou-a, espalhando a tinta e criando uma massa colorida e consistente nos dois lados da tela. “The PlopEgg Painting” analisa uma corrente de pensamento sobre o medo da criação, a força simbólica do casual e do poder criativo da feminilidade.

O processo performático e a utilização do próprio corpo como ferramenta pelo artista não é uma técnica tão nova, mas vêm sendo bastante explorado pelos artistas contemporâneos, seja nas artes visuais, cinema, documentário ou música. A instrumentalização do próprio corpo proporciona ao artista uma impressão autoral irrevogável e  maior autenticidade da obra, com alta carga dramática e simbólica.

Moiré também captou em vídeo todo o processo da construção simultânea de sua obra. Esse vídeo, além de registro, também tem como função estabelecer a narrativa construída por Moiré, onde todo o processo ganha um sentido em um único objeto, um TODO com início e fim, preso a uma duração. Essa apropriação da linguagem do vídeo faz “nascer” uma nova obra: a videográfica, onde todo o processo é resignificado, transformando-se em uma derivação da obra performática, podendo ser analisado de forma distinta, além da forma plástica.

A arte performática é um dos variados meios de produção da arte contemporânea ainda em estudo. Para se estabelecer com toda a sua narratividade, partindo da sua construção até a concepção, é necessário a utilização de mecanismos de registro de imagem, seja de vídeo ou de fotografia, onde criará uma extensão da obra, e automaticamente um desdobramento de significações, explorando as sensações que uma mesma obra pode provocar.

Aline Barros

Aline Barros

Alérgica a leite, viciou-se em café só para poder usar xícaras. Designer gráfico, mãe, blogueira e amante das artes em geral, troca facilmente um par de sapatos novos por um livro velho.