“O Show de Truman”: a sociedade do espetáculo

 "Nosso  tempo, sem dúvida (…) prefere a imagem à coisa, 
a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser.
(…) a medida que descreve a verdade, a ilusão aumenta (…)". 

(Extraído do livro "A Sociedade do Espetáculo" de Guy Debord)

 

“O Show de Truman” (1998), do cineasta Peter Weir com roteiro de Andrew Niccol, filme aclamado pela crítica na época, é uma obra cinematográfica carregada de significados. E não é para menos que está na lista na minha lista dos filmes favoritos.  

A história gira em torno de Truman Burbank, um vendedor de seguros, interpretado por Jim Carrey.  Desde o nascimento, Truman é dotado por um programa de reality show. Sem saber de nada, ele passa a viver num imenso estúdio cinematográfico.

Naquele ambiente é recriada uma ilha chamada Seaheven – nome que vem da junção das palavras Sea (mar) e Haven (refúgio, lugar seguro), um "refúgio à beira mar" – local em que vive desde a infância até a vida adulta; transmitida ininterruptamente durante 24 horas por dia, sete dias por semana, e visto por bilhões de pessoas ao redor do mundo através da TV.

O filme é uma referência clara à alegoria do Mito da Caverna de Platão (427 – 327 a.C), presente no livro “A República”. Resumidamente, esse mito conta a história de cativos que, desde a infância, são presos em uma caverna sem jamais saírem daquela situação. Eles só podiam vislumbrar as sombras de objetos reais projetadas nas paredes através da luz, fazendo com que acreditassem “ser aquilo a realidade”.

Um ponto interessante em "O Show de Truman" é que a obra cinematográfica remete a atmosfera opressora presente em “1984”, livro do grande escritor e jornalista inglês George Orwell (1903-1950), no qual Estado é controlado pela figura do “Big Brother”, que se utiliza de telecâmeras para monitorar e manipular a vida das pessoas. Da mesma forma acontece no filme, porém, o foco está em Truman. E o personagem Christof, criador do programa, que faz alusão ao Big Brother (O Grande Irmão) da obra de Orwell. 

O próprio "O Show de Truman" nada mais é que um espetáculo que se tornou um grande fenômeno mediático. Esse envolvimento sedutor da televisão, meio pelo qual os espectadores do filme acompanham o desenrolar da vida de Truman, faz com que os espectadores-personagem percam o si-mesmo e sua interação com mundo.

Portanto, “quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos entende sua própria existência e seus próprios desejos”, como afirma o pensador e escritor Guy Debord, no livro “A Sociedade do Espetáculo”.  Ou seja, eles passam a viver em função de uma falsa realidade; e chegam ao ponto de não distinguir mais o real do irreal (isso também não é diferente no que ocorre conosco quando estamos no mesmo papel).  

Embora o público saiba que Truman vive confinado desde o nascimento em um estúdio privado de sua liberdade, não se comove com tal fato e muito menos questiona a situação exibida ali. Veem aquele espetáculo com normalidade.

Ao longo do filme surgem situações estranhas em que leva Truman em busca de respostas. Com isso, dá inicio a jornada do herói que, segundo Joseph Campbell, no livro “O Herói de Mil Faces”, a aventura do herói é antes de tudo uma autodescoberta do indivíduo e do seu autodesenvolvimento.

É interessante se atentar o impressionante envolvimento dos espectadores-personagens em relação ao desfeche da jornada do herói, que é visto como se fosse um espetáculo de ficção. Truman consegue distinguir entre realidade e ficção, mas o público não mais, pois já estão entorpecidos pela televisão. 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e cofundadora do EntreLinha. É cinéfila, amante das artes e da literatura.