“Paz para nós em nossos sonhos”, entre abismos e vazios

“A felicidade é frágil como as asas de uma borboleta e deve ser tratada com cuidado”.

                                                                       ( diálogo de "Paz para nós em nossos sonhos")

"Paz para nós em nossos sonhos" (Peace to us in our dreams), do cineasta lituano Sharunas Bartas, pouco conhecido no Brasil, tratra-se de um drama complexo, autoral, sobre uma família que está à beira de um colapso.

Interpretado por atores não profissionais, um viúvo (Sharunas Bartas), homem introspectivo e cansado da rotina diária no trabalho que não sabe onde encontrar forças para continuar após a perda da esposa; sua atual companheira, uma jovem violinista (Lora Kmieliauskaite), que anda confusa e sem alegria de viver; e a filha (Ina Marija Bartaité) de 16 anos dele, vivida pela própria filha do diretor, que desde a morte da mãe não se dedicam muito um ao outro, resolvem passar um final de semana em sua casa de campo, à beira do lago.

A viagem, que a princípio vem como fuga, uma tentativa de remediar um conflito preste a eclodir a qualquer momento, acaba tendo efeito contrário, aflorando-os. Há um abismo que não conseguem transpor, e à medida que a narrativa avança mergulham ainda mais na solidão.

Outras personagens, igualmente complexas e também sem ter seus nomes revelados, surgem para compor o drama que reflete a respeito da existência humana. A calmaria do campo, perturbada pela presença humana, e a imponente paisagem natural, no filme uma personagem, além de ambientar exprime subjetivamente o vazio, a incomunicação, e abismos dos protagonistas.

A presença do silêncio, às vezes cortante, e os efeitos provocados por ele, ao longo da narrativa, além de causar um desconforto, angustia e uma sensação quase claustrofóbica, expressa de forma potente os não-ditos, evidenciando traumas e aflições dos protagonistas.

Com traço autobiográfico, o filme flerta com o documental e traz referências estéticas dos grandes mestres do cinema: o húngaro Béla Tarr (1955), do suéco Ingmar Bergman (1918-2007) e Andrei Tarkovski (1932-1986). "Paz para nós em nossos sonhos" é um filme belo, impactante, intimista, minimalista e poético.

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e cofundadora do EntreLinha e Coletivo Pausa. É cinéfila, amante das artes e da literatura.