Quando a Vida Imita a Arte

Inspirada livremente na clássica obra-prima do escritor francês Gustave Flaubert, “Madame Bovary”, que, na época de seu lançamento, em 1856, causou polêmica por seu conteúdo ser visto como imoral, quanto na graphic novel “Gemma Bovary”, da cartunista inglesa Posy Simmonds, adaptação livre da mesma, o longa-metragem da cineasta Anne Fontaine, além de transitar por gêneros, apresenta uma porosidade ao cruzar a fronteira entre o real e o ficcional.

Em “Gemma Bovery: A Vida Imita a Arte", a cineasta leva o espectador, através do carismático protagonista e narrador, Martin Joubert, interpretado pelo maravilhoso Fabrice Luchini, que estrelou nos filmes "O Melhor está por vir" (2020), "O Mistério de Henri Pick" (2019), "Dentro de Casa” (2012), “As Mulheres do Sexto Andar” (2010), entre outros, a um mergulho no universo literário de Flaubert. Mesmo quem ainda não conhece a obra conseguirá se deliciar, mas, no entanto, para o leitor (a) do escritor, com certeza, a história ganha outras camadas.

Martin, um homem de meia-idade, ex-editor literário apaixonado pelas obras de Gustave Flaubert, após a morte do genitor, resolve viver na vila da Normandia para tocar os negócios da família, fugindo da agitação de Paris. A mudança de ares, que a princípio trouxe paz e tranquilidade em sua vida, acaba com a chegada de um casal inglês, Gemma Bovary (Gemma Arterton) e seu marido Charles Bovary (Jason Flemyng).

De cara o protagonista nota semelhanças no comportamentos e personalidade de Emma e Charles, personagens principais de "Madame Bovary", com o casal recém chegado. Obcecado pelo livro, Martin vê a história Flaubert desenrolar diante de seus olhos. Determinado em alterar o final trágico que o autor dá a obra, a qual acredita que ocorrerá o mesmo com ambos, o protagonista passa observá-los, tanto que envolve-se de tal forma ao ponto de não conseguir mais distinguir o que é realidade e o que é ficção.

Fontaine apresenta no filme um jogo metaliterário e um olhar voyeurístico que acaba se aproximando, inevitavelmente, da brilhante obra cinematográfica do cineasta François Ozon, "Dans la Maison" (Dentro de Casa), em que o próprio ator principal também estrelou. Embora seja um história interessante, "Gemma Bovary: A Vida Imita a Arte”, pecou, a meu ver, pelo descuido na construção das personagens que compõe o enredo. A impressão que esse cuidado se ateve mais ao Martin, que é o contraponto cômico da história. Uma pena, pois haviam atores bons que poderiam ser mais explorados na mise em scène.

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.

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