“Ralé”: a poesia marginal e transgressora

O longa-metragem “Ralé” (2016), nova produção cinematográfica da cineasta e atriz Helena Ignez, é inspirado livremente numa peça do escritor russo Máximo Gorki, que traz relatos desconexos, pequenos dramas, com o intuito de protestar contra os padrões estabelecidos pela sociedade.

A partir daí, a cineasta traz para o enredo o seu olhar crítico e discussões contemporâneas, tais como, a homossexualidade, igualdade de gênero, defesa da mulher, índios e LGBTS, liberdade religiosa e as regras impostas pela sociedade que apresionam o ser humano, mas com um tom poético. 

Embora a narrativa seja fragmentada, o enredo centra-se no carismático personagem Barão, interpretado Ney Matogrosso, ex-viciado em drogas, que resolve fundar uma comunidade baseada na filosofia do Ayauasca, no interior de São Paulo. No mesmo local também se passa cerimônia de seu casamento com dançarino Marcelo, vivido pelo ator Roberto Alencar, conduzida por uma juíza transexual (André Guerreiro Lopes). No entanto, Ignez utiliza-se do recurso da metalinguagem para criar outro filme dentro de “Ralé” titulado de “A Exibicionista”, em que ambos dialogam entre si.  

O filme faz referência ao cinema marginal brasileiro, principalmente, ao “Copacabana Mon Amour” (1970), dirigido pelo icônico cineasta brasileiro Rogério Sganzerla, que foi marido da cineasta,  através de pequenos recontes do filme e, ainda, própria cineasta interpreta, mais uma vez, sua emblemática personagem Sonia Silk, marcando uma geração.

Outra referência é Teatro Oficina, juntamente com outros movimentos político-cultural do período, contribuiu para o desenvolvimento desse cinema, com a presença Mário Bortolotto e José Celso Martinez Corrêa no elenco, além de citações de Bertolt Brecht, dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht (1898-1956), e inspirou a cineasta na produção do longa-metragem “Canção de Baal” (2008), em que o revê num “tom antropofágico e marginal”

Ralé é marcada por sua proposta ensaio-experimental. É um filme híbrido, provocador, marginal, transgressor e, sobretudo, transpira poesia. Há um olhar maduro, autoral, que expressa nos poros da dessa nova produção sua a personalidade forte e marcante.

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Publicitária, blogueira, produtora e cineasta. É cofundadora do EntreLinha Blog, do Coletivo PAUSA e da websérie "Uma Pausa para o Café...", além de colunista do Design & Chimarrão.

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