Sin City: dos quadrinhos ao cinema

As Histórias em Quadrinhos estão sendo cada vez mais exploradas no campo cinematográfico; suas produções têm ampliado as possibilidades narrativas e se beneficiado com as inovações tecnológicas. 

Considerado um marco entre as adaptações de HQ’s para as telas do cinema, "Sin City", graphic novel de Frank Miller, ganhou vida nas mãos do cineasta Robert Rodriguez, que conta com codireção do próprio Miller e participação especial do grande cineasta Quentin Tarantino. 

Grande fã e colecionador das histórias em quadrinhos de Frank Miller, o cineasta americano Rodriguez, após ter autorização negada para levar Sin City às telas do cinema, produz um curta-metragem da história “The Customer is Always Right” (O cliente está sempre certo), em que conta com a participação do ator Josh Hortnett, apresentando o que tinha em mente para o longa-metragem.

Nesse projeto piloto, o cineasta manteve a estrutura, personagens e estética dos quadrinhos, respeitando a criação de Miller, a qual convenceu o criador a aceitar o desafio de juntos levarem o filme para as telas do cinema. E a partir daí, o sonho passa a se tornar realidade. 

O enredo de “Sin City” apresenta o submundo do crime, a corrupção, machismo, a violência e a sensualidade. Para criar um campo em comum entre a graphic novel e o cinema, o diretor desenvolveu a ação e o movimento tendo como storyboard a própria revista. Para isso, também houve uma transcodificação das histórias em quadrinhos trabalhadas em roteiro e, posteriormente, em imagens técnicas, fazendo uso da narrativa cinematográfica. Segundo o filósofo tcheco Vilém Flusser, no livro “Filosofia da Caixa Preta”, a imagem técnica são aquelas imagens produzidas de forma pragmática, através da mediação de um aparelho de codificação, no caso do cinema, a câmera.

Em “Sin City: A Cidade do Pecado”, o filme se baseia em quatro histórias de Miller:”That Yellow Bastard”, “The Big Fat Kill”, “The Hard Goodbye” e “The Customer is Always Right”, que ocorrem paralelas, sobre três anti-heróis que partem em uma jornada movida, cada qual, por uma mulher. Nove anos depois, o cineasta lança “Sin City: A Dama Fatal”, agora baseado na “Just Another Saturday Night” e duas outras histórias inéditas de Frank Miller, centrando-se na figura feminina, em seu poder de articulação. Nesse filme, Rodriguez e Miller conta com a participação do roteirista William Monahan, vencedor do Oscar 2007 de Melhor Roteiro Adaptado por “Os Infiltrados”, do cineasta Martin Scorsese.  

Contrastes entre preto e branco, claro e escuro, sombra e luz, é presente em todo o filme, uma evidente influência da HQ, mas, no filme traz conotações próprias. Em relação ao contraste de cores se dá de duas formas: ora exerce como uma função básica, o contraste visual, enquanto em outra, o contraste simbólico.

É interessante também observar que esses tons nos rostos das personagens denotam o dualismo em suas personalidades, ou seja, eles não são tão bons como, às vezes, possam parecer a princípio. Porém, há momento que o cineasta evidência a mise-en-scène através das cores, ora fortes e ora vibrantes, empregado com o intuito de potencializar a sua significação, como pode ser visto nas imagens logo a seguir.

Outro ponto que chama a atenção é quando há um destaque nos objetos deixando a personagem em segundo plano na cena, conotando que tanto a sua existência quanto seu caráter já tenha sido tragada pela cidade. 

Narrado em primeira pessoa, bem como a própria história em quadrinhos, ambos os filmes trazem uma originalidade visual, que me agradou muito, por sinal, ao estilo dos filmes noir. Há poucos movimentos de câmera e os enquadramentos são mais planos fechados.

A estrutura dos filmes se faz diferente das graphic novel de Frank Miller; o cineasta se apropria das obras e leva para os cinemas, juntamente com a parceria do próprio criador, duas ótimas produções de alta qualidade e riqueza de detalhes que, com certeza, conhecendo ou não os quadrinhos, agradará bastante o espectador.  

 

 

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.