Sobre embriaguez e contorno, Me Chame Pelo Seu Nome

Por Nádia Barbosa, poeta e doutora em Literatura Comparada (nadige@gmail.com)

Saí embevecida do cinema. Talvez a forma mais poética de se falar de amor que já vi na linguagem cinematográfica. Élio e Oliver me remeteram a Dioniso e Apolo, talvez uma possível leitura. Em “Me Chame Pelo Seu Nome”, Élio é Oliver, Oliver é Élio. Da junção dos dois fez-se o Amor e a Beleza, puros, não codificados; fez-se, enfim, a poesia com embriaguez e contorno, próprios da Arte.

Foi assim que senti. Élio, que o amante Oliver chama “Oliver”, é dionisíaco, próximo à natureza, à embriaguez, à música. Vez por outra, ao longo do filme, vê-se Élio ora ao piano, tocando, tensamente, intensamente; ora sobre uma árvore, quiçá uma oliveira, com um violão, tirando alguns acordes, livremente, da lira de Apolo (Oliver), que o ouve, ouvidos absolutos, com o desejo de identificar a precisão e as relações entre o comprimento das cordas e sua respectiva tensão, justas e perfeitas, harmônicas e equilibradas, que os deuses afirmaram na escala do universo. Dioniso, que é Élio que é Oliver, subverte a virtuose de Bach, mestre na arte da fuga, intenso e racional: Élio e Oliver, ao mesmo tempo. Oliver que é Élio, que é Apolo o aprecia e, em silêncio, emerge-se o Amor, a Beleza do Amor, advinda da junção da poesia e da razão. Razão apolínea que, no filme, é aludida pela intelectualidade acadêmica de Oliver (que o amante Élio chama de “Élio”), belo, inteligente, alegre, sugerindo, como Apolo, a Perfeição, a Harmonia, o Equilíbrio e a Poesia para cumprir o seu papel de   iniciador do jovem Élio.

Lindo filme! Forma delicada, sensível, enfim, poética, de se dizer do Amor, da Beleza e da Arte, portanto, do Humano. Forma sutil e afetuosa, por fim, de aproximar as representações do esmero do Amor, da Arte e da Beleza ontológicas. Por outro lado, a despeito de ser um filme “feminino”, à medida que estetiza nuances do “devir-mulher”, ou seja, da desterritorialização do homem e a fuga de suas formas binárias e hierárquicas, às mulheres é dado um papel coadjuvante. Essa ação coadjuvante talvez se justifique por ser, no filme, uma possível metonímia do “feminino codificado”, que, na narrativa, se “apaga” para fazer brilhar a potência do múltiplo que é o “devir-mulher”, vivenciado pelos personagens homens, a nos mostrar que debaixo do masculino e do feminino se escondem forças que simplesmente não podem ser dominadas.

Timothée Chalamet, o Élio, lembra a representação andrógina de Dioniso feita por Caravaggio. Armie Hammer, o Oliver, é de uma beleza solar, apolínea, explorada, no filme, pela fotografia do tailandês Sayombhu Mukdeeprom. A trilha sonora é espetacular.

Vale a pena conferir.

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