“Spotlight”: o protagonismo da investigação jornalística

Por Armando Neto, jornalista, escritor e apaixonado por cinema.

Confesso que em razão daquela dose de alienação, decorrente do inicio do ano, só me dei conta que iria assistir a um filme sobre jornalismo, gênero entre os prediletos, poucas horas antes da projeção iniciar. Não tive tempo de apurar detalhes da produção ou ler críticas prévias, me permiti, apenas, ser surpreendido.

Logo de cara, percebi que o elenco era primoroso, capitaneado por uma atuação convincente de Michael Keaton, como Walter “Robby” Robinson, o editor do caderno Spotlight (Holofote, em português), e Mark Ruffalo, excepcional na pele do repórter Michael Rezendes. Já deixo de antemão minha torcida para que o Oscar de melhor ator coadjuvante chegue às mãos de Ruffalo, que desde “Minhas mães e meu pai” (2010) e “Mesmo se nada der certo” (2014), entre outras produções, vêm colecionado performances cada vez mais consistentes. Destaque também para Rachel McAdams como a repórter Sacha Pfeiffer, Liev Schreiber que interpreta o editor-chefe recém-contratado do Boston Globe, Marty Baron, e a ótima presença de Stanley Tucci, no papel de Mitchell Garabedian, um incansável advogado das vítimas. Não ficaria nem um pouco desgostoso ou surpreso, da mesma forma, se Stanley fosse indicado e agraciado com a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante.

A história, como muitos se lembram, é baseada na investigação jornalística que, em 2002, desvendou uma série de casos de pedofilia praticados por padres católicos na cidade de Boston (EUA), e acobertada pelo clero local. Essa investigação, por sinal, foi vencedora do prêmio Pulitzer de 2003, considerado um dos maiores reconhecimentos às práticas jornalísticas, e desencadeou uma grande saia justa para a Igreja católica. Para ter uma ideia, o Papa Francisco, em visita aos EUA no ano passado, teve como um dos temas de sua visita novamente pedir perdão às vitimas e familiares em razão desses vergonhosos atos revelados.

Diante de uma história tão forte, repleta de questões polêmicas, o diretor Tom MacCarthy acerta na mão em não criar uma atmosfera ainda mais sentimentalista ou sensacionalista que o próprio tema. Ao contrário, ele fomenta um clima para que o brilho centrasse na investigação jornalística. Neste sentido, não há como não se recordar de um dos maiores clássicos do gênero “Todos os Homens do Presidente”, de Alan J. Pakula, que, há 40 anos, revelou os principais fatos ocorridos com os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein do Washington Post, interpretados por Robert Redford e Dustin Hoffman, respectivamente, responsáveis por desnudar o caso Watergate, que culminou com a renúncia do presidente Richard Nixon.

Nos dois filmes temos ciência do final, por isso, a atenção se desloca para como aqueles jornalistas enfrentaram todas as adversidades e conseguiram publicar as matérias. Em “Spotlight”, vale lembrar que Boston é uma das regiões mais católicas dos EUA, e que a reportagem, simplesmente, denunciou o cardeal Bernard Law, Bispo da região, e mentor de uma rede de proteção que ocultou inúmeros abusos sexuais cometidos por padres de sua diocese, a qual dirigiu entre 1984 e 2002. Law renunciou o posto tão logo a reportagem foi publicada, e aposentou-se.

Essa investigação jornalística, resultante do enfrentamento de fontes, apuração incessante, busca por novas evidências, ou seja, a natureza do repórter investigativo é traduzida por meio do cotidiano do caderno Spotlight, o mais antigo do Boston Globe, cuja equipe é destinada exclusivamente a lidar com esse tipo de demanda. Um caderno composto por profissionais que se dedicavam a trabalhar em assuntos não limitados pela instantaneidade do amanhã. Jornalistas vivenciando a liberdade de exercer a profissão, e todos os contratempos, porém, com a exclusividade de se atentarem e esmiuçarem grandes temas.

A reportagem ocorre em 2002, ano conturbado na América, marcado pelo 11 de setembro. Aliás, a tragédia das torres gêmeas gera uma pausa na reportagem, pois membros da equipe são deslocados para auxiliar nas apurações em Nova York. Outro aspecto importante reside na popularização da internet, em franca ascensão e, como desencadeador, o início da competição com o factual virtual. Em uma cena do filme o editor recém-contratado, Baron, conversa com Walter Robinson para saber detalhes sobre o Spotlight. Ele deixa transparecer a surpresa em constatar que uma equipe toda se dedicava a tratar de assuntos atemporais. O jornalista havia chegado para justamente reestruturar o veículo, modernizá-lo em vista a concorrência com as grandes publicações americanas e não nega a possibilidades de realizar cortes na redação. De qualquer modo, Baron afirma que somente as grandes histórias poderiam sustentar a manutenção daquele caderno e sua condução foi fundamental para o sucesso da investigação.

Quase 15 anos após a reportagem que originou o filme, o universo jornalístico ainda se encontra navegando em busca de caminhos mais serenos para enfrentar a chegada do mundo virtual. No Brasil, a recorrente redução de profissionais e até o fechamento de veículos demonstram que a situação ainda exige muita análise. Quem sabe incentivar grandes reportagens, como no passado, não possa ser o guia para se adequar ao presente, ensaiando, assim, um futuro mais promissor ao jornalismo nacional. Mas, se as reportagens investigativas são cada vez mais escassas, ainda bem que, pelo menos, temos o Cinema para nos recordar de como elas eram.

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