Um olhar sobre “Azul é a Cor mais Quente”

 

"A água me escapa…me escorre entre os dedos. E olhe lá! Isso nem é tão limpo (quanto uma lagartixa ou uma rã): ficam-me nas mãos traços, manchas, relativamente demorados para secar ou que se devem enxugar. Ela me escapa e, no entanto, me marca, e quase nada posso fazer. Ideologicamente é a mesma coisa: ela me escapa, escapa a qualquer definição, mas deixa em meu espírito e neste papel traços, manchas informes."

Trecho extraído do poema “De l’eau” de Francis Ponge

 

O polêmico drama de “La Vie d’Adèle”, conhecido no Brasil como “Azul é a Cor mais Quente”, do cineasta franco-tunisano Abdellatif Kechiche, surgiu da combinação da graphic novel “Blue Is The Warmest Colour”, de Julie Maroh, e do projeto de um roteiro que o cineasta já tinha em mente em produzir.

Inspirado livremente na HQ, o filme conta a história de Adèle, vivida por Adèle Exarchopoulos, uma jovem de 15 anos que se vê perdidamente apaixonada pela estudante de artes, a Emma, interpretada pela atriz Léa Seydoux. Sem poder revelar seus anseios aos familiares e amigos, devido às tensões a respeito da homoafetividade, Adèle se entrega ao amor e, ao mesmo tempo, trava consigo mesma uma guerra interior e com a moral vigente. 

Kechiche levanta duas questões em “La Vie d’Adèle”: a diferença de classes sociais – elemento recorrente em seus filmes – e a relação homoafetiva, assunto que tem gerado muitas controvérsias, principalmente na França, na qual desenrola a história.

A temática causou enorme burburinho pela sociedade francesa que, no período, vivia um momento político delicado em relação ao casamento homoafetivo, devido à revolta de religiosos e conservadores. Embora não tenha mudado muito desde seu lançamento.

O cineasta retrata o amadurecimento íntimo e as tensões psicológicas e emocionais de Adèle, em que enfatiza o comportamento ambíguo da personagem. No entanto, não tem a intenção de levantar uma bandeira, mas, sim, banalizar a homoafetividade e, com isso, suscitar uma discussão em torno do assunto.

No filme há presença da literatura como recurso metalinguístico. O título original, “La Vie d’Adèle”, faz referência a grande obra literária “La vie de Marianne”, do escritor frances Pierre de Marivaux (1688 – 1765),o mesmo romance que Adèle está lendo. Durante uma aula de literatura, em que os alunos discutem o poema “De l’eau” (Água), do poeta Francis Ponge, trecho que abre esse texto. A água que se refere ao poema é sugerida pela cor azul no filme, presente no figurino e na própria composição do cenário,que é empregada como metáfora de transformação da personagem Adèle.

Os enquadramentos em planos fechados – os closes na boca, olhos, rosto e partes íntimas – é um recurso muito explorado ao longo do filme, que busca potencializar as sensações da personagem e, consequentemente, levar o espectador a senti-las também. Além de criar no espectador uma relação de vouyerismo íntimo e cúmplice.

"Azul é a Cor mais Quente" é um filme provocador  e polêmico, bem como o próprio diretor, Abdellatif Kechiche.  

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e cofundadora do EntreLinha. É cinéfila, amante das artes e da literatura.