Adam und Evelyn

“Adam und Evelyn”, obra literária do escritor alemão Ingo Schulze, figura ainda pouco conhecida no Brasil, que veio a ser publicado em nossas terras pela então editora Cosac Naif, em 2013, ganha livre adaptação para linguagem cinematográfica pelas mãos e o olhar sensível do cineasta Andreas Goldstein.

Ambientado em 1989, quando a República Democrática Alemã dava seus últimos suspiros, Evelyn (Anne Kanis), num fatídico dia, descobre, ao acaso, que seu namorado, Adam (Florian Teichtmeister), um designer de roupas femininas, tinha uma relação com suas clientes que excediam os limites profissionais. Decepcionada, decide seguir os planos de férias que fariam juntos ao paradisíaco lago Balaton, na Hungria, porém, agora, na companhia de sua amiga, Katja (Lena Lauzemis)e de Michael (Milian Zerzawy), que vivia na Alemanha Ocidental. 

Adam parte atrás Evelyn na tentativa de salvar o relacionamento. Ao longo da viagem, conhece Simone (Christin Alexandrow), uma jovem que tenta fugir dos militares da República Democrática Alemã (RDA), e acaba por ajudar a cruzar a fronteira da Hungria com a Áustria, escondendo-a no porta-malas do seu carro Wartburg 311 azul-celeste.  

Os conflitos pessoais do jovem casal e o sonho de Evelyn de estudar história da arte, ou, pelo menos, de abrir seu próprio café, o que não seria possível na Alemanha Oriental (de sistema socialista), são atravessados por outros de dimensões ainda maiores – retratados por meio de programa de rádio/TV -, que, inevitavelmente, mudaria o curso da história, afetando-os organicamente. E e o alívio cômico vem como um respiro, na medida.

Goldstein retrata esse movimento – físico, emocional e histórico – com maestria e sensibilidade. A trama se desenrola num ritmo lento, contemplativo e poético, em que o privado e o público se misturam; é marcado por uma belíssima fotografia, assinada pela diretora de fotografia Jakobine Motz, e uma encenação minimalista e contida.

"Adam und Evelyn" é um filme de silêncios, de não ditos, e o espectador precisa estar mais atento as sutilezas e o que é expresso nas entrelinhas.

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.