“Boi Neon”: a poética do cotidiano

Desde o primeiro momento que vi o trailer do longa-metragem “Boi Neon”, já sabia que tinha algo muito especial nesse filme. Ao assisti-lo em uma sessão que contou com bate-papo do diretor pernambucano Gabriel Mascaro, que foi uma aula de cinema, confirmou o que havia sentido e um pouco mais.

“Boi Neon” é um road movie brasileiro que traz como pano de fundo a vaquejada. O filme, que retrata o cotidiano de Iremar, interpretado pelo ator Juliano Cazarré, um vaqueiro que viaja pelo nordeste afora ao lado de Galega, vivida pela atriz Maeve Jinkings – motorista do caminhão/casa, dançarina e mãe da garota Cacá (Aline Santana), o sisudo Mário (Josinaldo Alves) e Zé (Carlos Pessoa) – parceiro no trabalho -, acabam formando uma família.

Em meio aquele ambiente  rústico e bruto, Iremar sonha em se tornar um estilista no Pólo de Confecção. Enquanto o sonho não se torna realidade, segue recolhendo os tecidos, revistas, cria seus croquis; mesmo de forma improvisada, faz suas costuras.

BoiNeon

O longa não apresenta grandes acontecimentos e personagens com arcos dramáticos, como vemos em muitos filmes. Há sim uma naturalidade e intensidade, tanto das imagens quanto nas interpretações dos atores. Mascaro foca nas peculiaridades cotidianas, no humano, nos sonhos e esperanças.

O interior nordestino é apresentado de forma natural e simples, mas não simplista. Logo de cara, o cineasta vai desconstruindo os estereótipos pré-concebidos em relação à questão de gênero, bem como do universo nordestino, na qual vai ressignificando essas ideias que foram cristalizadas.

Além da dualidade, que está presente ao longo do filme, como em seu próprio título, nota-se que o corpo é uma obsessão de Mascaro. Tanto no filme “Ventos de Agosto” (2014), primeiro trabalho cinematográfico ficcional de sua carreira, quanto em “Boi Neon”, a forma que o diretor visualiza esse corpo (homem/mulher/animal), impacta e, muitas vezes, chega ao ponto de causar incomodo ao espectador. Está aí a força de seu filme.  

“Boi Neon” apresenta várias cenas emblemáticas, mas uma delas, em especial, não saiu da minha mente após a sessão, impactou-me, na qual a personagem Galega dança com pata e cabeça de cavalo, criando um ser antropozoomórfico. Essa figura em si, já carrega uma carga símbólica forte de significação, mas também representa uma comunhão entre homem/animal e sua animalidade. 

A imagem em questão, também faz referências às obras “Fantasia da Compensação” que, particularmente, impressionou-me muito causando certo desconforto, e “Comunhão”, ambas do amazonense Rodrigo Braga, artista muito interessante e complexo, que joga com os sentidos do observador. Segundo o filósofo Gaston Bachelard, no livro “A poética do espaço”, “sentimos que há outra coisa a exprimir, além daquilo que se oferece objetivamente à expressão”. É o que acontece tanto nessa cena da Galega quanto em relação às obras de Braga.

O movimento de aproximação e distanciamento da câmera, empregado no filme em questão, apresenta uma significação muito particular que dialoga com o contexto da história.  Quando a câmera se aproxima das personagens, ocorre uma espécie de esvaziamento, mas quando o movimento é o inverso, o distanciamento, cria uma proximidade deles. 

Mascaro também trabalha com um ritmo narrativo mais marcado do que em "Ventos de Agosto", além de flerta com o cinema documental. Nas entrelinhas desse longa-metragem, há mais fios a serem puxados e observados, na qual ficaria aqui horas a tecer.

"Boi Neon" é um filme autoral, que traz um olhar poético do cotidiano e a beleza da simplicidade da vida. É um filme  que deve ser visto e revisto. Cada vez fico mais apaixonada pelo cinema pernambucano contemporâneo.

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.