Ressuscitando Angel Heart – Coração Satânico, de 1987

 

Por que escrever sobre um filme de 1987? Porque se você não passou dos 40, provavelmente não viu esse filme, a não ser que tenha procurado referências do diretor ou dos atores. 

Tem tudo para ser bom: Mickey Rourke no seu melhor papel, o diretor Alan Parker e até mesmo Robert De Niro. Não é novo, mas vou evitar spoilers. Pode ser novidade para muitos e alguém pode querer assistir. E vale cada segundo do filme.

As credenciais do diretor Alan Parker podem ser "Fama", "Asas da Liberdade" e "Mississipi em Chamas", são ótimos, mas, em minha opinião, estão muito atrás de "Angel Heart", que foi traduzido como "Coração Satânico". Nos anos 50, o detetive Harry Angel, de novo, Rourke em papel genial, é um clássico detetive tipo Sam Spade: um cara inteligente, com aparência sempre suja, barba por fazer e completamente despreocupado. Não é um action guy e deixa claro que não pretende se envolver em situações que coloque sua vida em risco. Tem uma visão aguda e nada lhe escapa. É interessante como ele reconhece a data de uma assinatura, escrita com caneta esferográfica, porém datada antes de sua invenção/popularização.

Angel-Heart-Voodoo

Contratado para descobrir o paradeiro do rock star de outros tempos, ele conhece através do advogado Winesap (Dann Florek de Law & Order SVU) o sr. Cypher, que oferece uma boa quantia para prosseguir nas investigações, mesmo que perceba algum perigo. Ela o conduz para um mundo de magia negra e, também, para a velha New Orleans, que ainda esbanjava sinais da segregação racial nos Estados Unidos. Parker, que já causava uma tensão e até um certo mal estar desde o início, quando vai para o Brooklin e New Orleans, coloca no ambiente do detetive Harry Angel traços da cultura negra como a religião e rituais místicos com uma programação estética que, até mesmo cenas sem nenhum apelo vinculado ao roteiro, tornam-se pesadas.

O som de garotos sapateando na rua invade uma cena de investigação e dita o ritmo do filme, que força uma sincronia com o coração do telespectador. A câmera pega o detalhe de uma freira negra em trajes brancos, ajeitando os pés depois de se sentar em uma cadeira mais alta que suas pernas. Ventiladores rangem como se nunca tivessem visto uma gota de óleo e giram impulsionados pela tensão do momento, fazendo ruídos que induzem a taquicardia. São apenas detalhes de algumas cenas. As melhores não descrevo para não criar um spoiler de quase 30 anos. Harry Angel é um detetive simpático, que cativa a todos que encontra no seu caminho. Sim, claro, as mulheres também. E não só as mulheres e os homens da trama, mas também os espectadores.

A empatia é o grand finale. Ele encontra o rock star que tinha desaparecido e descobre o motivo porque foi incumbido de encontrá-lo. Ninguém sai ileso do bom trabalho do detetive, que não tem como evitar essa empatia pelo rock star entregue ao Sr. Cypher

Lívio Sakai

Sou como um carro não muito velho, mas com 500.000 km marcados no odômetro.