“Torre. Um dia brilhante”: um filme enigmático

O longa-metragem da jovem cineasta polonesa Jagoda Szelc, "Wieza. Jasny dzien" (2018), no Brasil, "Torre. Um dia Brilhante", exibido no Circuito Indie Festival 2019, que transita entre o drama e os gêneros do horror, fantástico e o Thriller, é uma obra filmica enigmática.

"Torre. Um dia Brilhante" inicia-se com uma tomada aérea numa referência direta ao filme "O Iluminado" (1980), obra-prima do terror psicológico do cineasta Stanley Kubrick. Um ruído sobressai ao longo dessa sequência, que também permeia toda a narrativa em momentos bem pontuais dando um tom sombrio, misterioso e angustiante, a qual é construído de forma gradativa.

A ficção se passa num vilarejo no interior da Polônia, aonde o casal Mula (Anna Krotoska) e Michel (Rafal Cieluch) aguardam a chegada dos familiares para a Primeira Comunhão da filha, Nina (Laila Hennessy). Dentre eles, está a irmã, Kaja, mãe biológica da menina, que permaneceu ausente desde seu nascimento. Enquanto a família vê o retorno de Kaja (Malgorzata Szczerbowska) como uma reconciliação, Mula desconfia da aproximação e a interação dela com Nina, sente que a verdadeira intensão é levá-la embora, algo que lhe apavora, a qual tenta lidar, como pode, com a situação incômida, levando ao limite.

A presença de Kaja não apenas desencadeia mudanças na família como uma série de peculiares eventos metafísicos passam a ocorrer intensificando a atmosfera sombria e tensa do filme, o estranhamento e a sensação angustiante de que algo, a qualquer momento, está preste a acontecer.

Há sinais, ao longo do filme, que sobrepõem a trama, trazendo traços de traumas históricos bem como alegorias políticas polonesas. A natureza, sempre imponente, assume um papel importante; não é apenas um mero cenário, mas como uma personagem enigmática.

O filme traz traços estilísticos do Manifesto Dogma 95 e o Voto da Castidade, como, por exemplo, a câmera na mão, cortes secos, som ambiente, filmagem em locação,  -,  desenvolvido pelos cineastas dinamarqueses Lars von Trier e Thomas Vinterberg, influenciados pelo Neorrealismo e a Nouvelle Vague, com o intuito de colocar o diretor como o autor e de ter em suas mãos a autonomia na criação da obra cinematográfica, que, posteriormente, outros importantes nomes uniram-se ao movimento como Kristian Levring, Søren Kragh-Jacobsen, Susanne Bier, Richard Martini, Jean-Marc Barr, Anthony Dod Mantle, Lone Scherfig, Paprika Steen e Harmony Korine.

"Torre. Um dia brilhante" leva o espectador a uma experiência imersiva, pertubadora e nada previsível, porém deixa muitas pontas soltas que, automaticamente, abrem para multiplas interpretações. Isso é algo bem interessante, mas, no entanto, neste filme, a impressão é de que a direção se perde um pouco pelo excesso de elementos inseridos. Mesmo assim, não deixa de ser um filme curioso.

 

 

 

 

 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e cofundadora do EntreLinha e Coletivo Pausa. É cinéfila, amante das artes e da literatura.