Trago Comigo: escancara as feridas abertas da Ditadura Militar

O trauma da violência durante a ditadura militar brasileira ainda paira na sociedade, crimes ainda impunes, feridas que continuam abertas, sangram as truculências de um período tatuado na história do país. Manchas, a qual me fez lembrar o conto do escritor Luiz Fernando Veríssimo, titulado “Manchas”, a qual recomendo a leitura.

Essa temática novamente perpassa a obra da cineasta Tata Amaral. Após “Hoje” (2011), em que a diretora já exuma esse passado; a nova produção toca, mais uma vez, na ferida, nesse documentário que flerta com a ficção, vice-versa.

Forte, provocador, doído e reflexivo. “Trago Comigo” é um filme dentro do filme, que tenta montar esse quebra-cabeça, mas, o mesmo tempo, levanta questões cruciais e joga ao espectador. Não, não tem como ficar indiferente, não tem como sair ileso. 

O longa-metragem traz o protagonista Telmo, diretor de teatro e ex-guerrilheiro, interpretado pelo ator Carlos Alberto Riccilli (está ótimo em sua atuação), que viveu na pele as perseguições, torturas e o exílio. Ao ser entrevistado para um documentário que aborda sobre a ditadura, logo no início do filme, Telmo vê que uma parte desse período desligou-se para conseguir viver, não que tenha esquecido, pois a dor lateja. Havia pontos de seu passado sem respostas. Ao recebr um convite de Lopes (Emilio Di Biasi), ex-companheiro de guerrilha e atual Secretário da Cultura,Telmo  passa a dirigir uma peça de estreia de abertura de um teatro, onde atuou no passado, usa a arte como meio de terapia ao dialogar com suas próprias cicatrizes. 

Vemos um jogo de espelhos, uma montagem teatral com jovens de mesma idade de Telmo Marinicov no período da Ditadura, encenado no palco, que nos revela um olhar sobre um distanciamento de gerações em relação à repressão. Mas, no entanto, certo momento, a encenação é empregada como mecanismos de “desnudamento do tirano”, bem como na peça Hamlet, de Shakespeare. Os depoimentos verídicos que mesclam entre a encenação, trazendo denúncias de sobreviventes dessa barbárie, intensificam a carga dramática do filme.

“Trago Comigo” faz referência ao filme “O Último Metro”, do cineasta francês e precursor da Novelle Vague no final da década de 50, François Truffout. Além de trabalhar com metalinguagem, ambos têm o teatro como um reduto libertador em meio à opressão vivida, no caso do Truffout, refere-se a é uma peça judia encenada durante a ocupação nazista na França em 1942.  

Premiado em 2015 como Melhor Filme pelo Júri Popular no 10º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo e Melhor Filme no Festival Internacional de Cine y Derechos Humanos de Sucre, na Bolívia, “Trago Comigo” nos leva uma reflexão profunda, que mostra a importância de que precisamos, realmente, conhecer de fato a nossa própria história e não deixar as feridas Militar fique no esquecimento. Há torturadores sendo homenageados. As sequelas ainda estão presentes na sociedade, como também pode ser visto no interessante documentário “Orestes”, do cineasta Rodrigo Siqueira.

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.