Alô, alô, respeitável público! Temos a honra de apresentar, quer dizer, mencionar, que o longa-metragem “O palhaço”, do ator e diretor Selton Mello, finalmente chegou ao EntreLinha. Digo finalmente, pois já fazia algum tempo que queria falar sobre ele.
“O Palhaço” parece um filme com enredo simples, mas ao olharmos mais atentamente quão é profundo e nos leva a reflexão. Poético, sensível e envolvente, tem como ponto de partida a crise criativa que tomou o ator em 2009, porém, não é autobiográfico.
Uma mistura de drama melancólico e um humor muito particular, o longa-metragem conta a história de Benjamin (Selton Mello), filho do dono do Circo Esperança, que divide o picadeiro com o pai (Paulo José) em andanças pelo interior do Brasil. Embora arrancasse sorrisos do público por onde passava, lá no fundo havia uma tristeza que habitava em seu ser. Afinal, “eu faço o povo rir, mas ai, quem é que vai me fazer rir?”. É na busca pela sua identidade que Benjamin parte do circo para ter uma vida diferente do que tinha vivido até ali.
O filme possui uma excelente produção que se destaca tanto pelo aspecto técnico, trilha sonora e roteiro quanto pela sua construção visual. Um ponto importante a se atentar são as paisagens interiores, encontrada em cada personagem: o sentir e o pensar, onde esconde a riqueza da obra cinematográfica de Selton Mello.
O ventilador, que aparece ao longo do filme, é um elemento chave da narrativa fílmica. Tanto o conflito vivenciado por Benjamin quanto seu imaginário é representado pelo objeto em questão, no qual potencializa o sentimento, que é o fio condutor da narrativa. ??????
A imagem do ventilador torna-se também uma representação simbólica e abre espaço para várias interpretações. A leitura do objeto na história do filme varia de acordo com o “[…] modo como encaramos o mundo, quase sempre afeta aquilo que vemos. O processo é, afinal, muito individual para cada um de nós. O controle da psique é frequentemente programado pelos costumes sociais”, como bem cita a designer e professora Donis A. Dondis, no livro “Sintaxe da Linguagem Visual”.
Assim, o repertório de cada espectador é determinante para que possa interpretar a função do ventilador na narrativa. Portanto, a minha interpretação pode ser diferente de outra pessoa, e o filme, como um todo, irá tocar de forma muito particular, às vezes mais ou menos intensa.
"O Palhaço" traz referências do cineasta francês Jacques Tati (1902-1982), Federico Fellini (1920-1993), considerado um dos mais importantes cineastas italianos, do cineasta italiano Giuseppe Tornatore e o francês Jean-Pierre Jeunet.
Indicado ao Oscar como Melhor Filme Estrangeiro em 2012, “O Palhaço” representou o Brasil na 8º festival latino-americano de Sydney, na Austrália, em 2013, e ainda recebeu 26 prêmios.


