A magia está no ar

 

Quando o cineasta Woody Allen lançou “Magic in the Moonlight” (A Magia ao Luar), no primeiro momento, o filme não me atraiu tanto quanto “Blues Jasmine” (2013) quando estreou nos cinemas.

Mesmo gostando  muito dos filmes de Allen, ainda demorei um pouco para assisti-lo. Essa demora não se deu pelas críticas boas e ruins a respeito da obra, pois sempre gosto de tirar as minhas conclusões. Mas, certo dia, após uma longa conversa sobre filmes, “A Magia ao Luar” veio à tona e aproveitei o ensejo para assisti-lo, no qual compartilho meu olhar sobre ele.

Embalado por uma trilha que já vai preparando o espectador para se ambientar no contexto em que se passa história, no final do século 20, “A Magia ao Luar” inicia com a estética dos filmes antigos – fundo preto, créditos abrindo o filme –, fotografia com tons amarelados, além de ter como palco da trama um cenário espetacular e romântico, a Riviera Francesa.

Um dos personagens principais, o alter-ego de Woody Allen, é apresentado nos primeiros minutos do filme. Perfeccionista ao extremo, no que diz respeito ao seu trabalho, mal humorado, cético, existencialista e de personalidade forte, marca quem é Stanley Cronford (Colin Firth), o ilusionista, mais conhecido pelo público que assiste suas apresentações como o chinês Wie Ling Soo.  

Dado momento aparece um amigo, também ilusionista, o Burkan (Simon Mcbunney), que faz um convite irrecusável à Stanley: desmascarar uma suposta charlatã que diz ter “dons mediúnicos”. 

A trama passa a desenrolar com a chegada de Stanley à Riviera Francesa, que fica no encalço da bela jovem norte-americana Sophia, interpretada pela atriz Emma Stone, na busca incessante de provar que ela é uma impostora.

No entanto, a jovem o leva à dúvida: será que ela é realmente uma médium ou é apenas uma boa charlatã? Essa dúvida que passa inquietar Stanley, bem como o espectador, leva-o a questionar suas próprias crenças diante dos fatos apresentados.

A dúvida. “O ponto de partida da dúvida é sempre uma fé”, como menciona o filósofo tcheco Vilém Flusser em seu livro “A Dúvida”. Quando a fé (uma “certeza” de algo) é atingida pela flecha da dúvida, a “ingenuidade” e a “inocência” de crer em algo, independente em quê, destroem o que até então era uma “certeza autentica para produzir certeza inautêntica.”

Entre o jogo do que é ou não real, narrativa leve e despretensiosa, diálogos com boas pitadas de humor e acidez na medida certa, flertes, olhares de descrença de Stanley e a interpretação teatral de Sophia, é a mise em scène que dá equilíbrio necessário na obra cinematográfica de Woody Allen.

Se você ainda não assistiu, fique tranquilo (a), o desfecho da história fica por sua conta. Depois compartilhe com a gente o que acho.

Boa sessão. 

Erica Ribeiro

Erica Ribeiro

Comunicóloga, escritora, cineasta e também jardineira. É cofundadora do Coletivo Pausa, cofundadora/editora-chefe do EntreLinha, uma cinéfila incorrigível, amante das artes e da literatura.